Walk & Talk : uma exposição enganadora

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Nuno Nunes-Ferreira, Festa, 2013


Artigo original aqui.

As ilhas atraem-nos em permanência. Quanto mais longínquas, estranhas, suspensas ao fim do mundo, nos confins do desconhecido, um pouco antes de uma grande travessia, mais a sua magia funciona. É nas ilhas (nos portos também, por vezes) que nós reencontramos o desconhecido, o inesperado, o que talvez nos fará desviar da nossa rota, o que talvez nos guiará a outros lugares. E assim, no meio do Atlântico, na extremidade ocidental da Europa, sobre uma terra que vulcões e terramotos animam por vezes, numa paisagem de campos verdes e pedras negras, entre céus sempre húmidas e águas sempre verdes, tem lugar, a cada Verão de há cinco anos para cá, um festival artístico que combina o interior e o exterior, os artistas vindos de fora e os criadores locais, que conjuga até no nome, “Walk and Talk”, “Anda & Fala”, a descoberta e o câmbio, misturando o português e o inglês, a deambulação e a palavra até à alvorada. Falarei obviamente sobretudo de artes plásticas e de street art, mas também há ateliers, dança, música, design e todo o tipo de outras fontes de criatividade. A ilha de São Miguel torna-se ela então o centro do mundo, a uma equidistância imaginária de quatro continentes (se distinguirmos as duas Américas…)? Torna-se em todo o caso, durante quinze dias, um laboratório interessante, um lugar onde pessoas um pouco insensatas se reencontram para experimentar e tentar criar uma nova relação com a arte e a cultura, alta e baixa, um evento que os seus dois jovens criadores transformam incessantemente. Talvez que, nas suas disciplinas respectivas, Avignon ou Arles seriam assim no seu início, talvez daqui a vinte anos olharemos com surpresa e respeito aquele que dirá “estive no Walk and Talk em 2011, em 2015…”

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Maria Trabulo, A caminhada é fácil com os pés no chão, 2014, foto do artista

E assim, para começar pelo aspecto mais clássico (mas também talvez o mais revelador), primeiro uma exposição com um título estranho, “Gente Feliz com Lágrimas”, cujo título vem deste livro, mas da qual o propósito se quer bem mais vasto: os dois comissários, ambos artistas, quiseram tratar de questões de movimento e de território, de pertença a um lugar e de dependência. Mas o que se torna sobretudo evidente na vintena de peças aí apresentadas é que nada é verdadeiramente o que parece ser: neste lugar que pensaríamos periférico e exótico, e que se revela como um laboratório criativo essencial, as aparências não poderiam ser mais enganadoras – e as pessoas felizes choram…

Na entrada, folhas de jornal reproduzem fotografias de praias paradisíacas nas quais estão inscritas dados de webcams, praias privadas de hotéis de luxo, compreendemos ao decifrá-las. Mas cada uma destas praias destinadas a acolher os corpos avermelhados pelo sol de Europeus do Norte também foi o lugar de chegada de corpos do Sul, corpos escurecidos, queimados, esfomeados, sedentos, por vezes mortos ou então apenas sobrevivendo, corpos de imigrantes clandestinos que chegam ali sobre pateras precários, num final de um périplo feliz ou trágico. E a recolha que a artista Maria Trabulo compôs assim, este pequeno jornal que o espectador poderá levar para sua casa para aí escolher tranquilamente a sua praia favorita, torna-se assim uma falsa aparência, um cenário para esta tragédia. Ali ao lado, sacos em juta pousados no chão começam subitamente a mexer-se: alguém lá dentro é prisioneiro, contorciona-se, tenta escapar ou simplesmente aceder ao ar, à luz. Este peça de ilusão de Nuno Nunes-Ferreira chama-se Armadilha.

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Maciel Santos, Sweet Orange Mega Beast, 2013 vista da exposição, foto Rui Soares

Subindo a escada, sentindo uma presença atrás de nós, descobrimos uma escultura mural do mesmo Nuno Nunes-Ferreira, feita de megafones recuperados na sede local do Partido Comunista e agora irrisórios, vazios de energia e sentido, e que no entanto parecem ameaçar-nos e vigiar-nos (acima). Acedendo à grande sala no primeiro andar, o espectador é confrontado em primeiro lugar com a reprodução em madeira de um grande contentor azul, sob o qual está presa uma laranja: podemos fazer uma leitura política, económica, aí ver oposições, tensões, falar de desequilíbrio e de desigualdades. Vá-se lá saber porquê, diante dessa instalação de Maciel Santos, também ela rica em reinterpretações possíveis, é um poema de amor que me veio à cabeça.

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Rodrigo Oliveira, Sobre o Leite Derramado, 2008, pintura mural

Sobre uma das paredes, Rodrigo Oliveira pintou um fluxo ininterrupto de leite: leite dos Açores, leite da terra prometida (a do leite e do mel), leite passando da micro-economia rural à macro-economia dos grandes grupos alimentares. Mas vejo aí também o mito do movimento perpétuo, da cornucópia inesgotável, do fim da penúria. Ao lado, nova ilusão, três fotografias de Lisboa por Sandra Rocha: um casal vestido de branco a dançar, um quarto de hotel vazio, uma sala de visitas de prisão vazia, três imagens de solidão. Imagens que seriam das mais ordinárias se não se tratassem aqui de Lisbon, California, Lisbon, Missouri, Lisbon, Ohio…Mais uma aparência enganadora.

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Angela Ferreira e Narelle Jubelin, Crossing the Line.3 1999-2015

Ângela Ferreira com Narelle Jubelin revisita mais uma vez mitos coloniais a partir de uma fotografia da família Ferreira a passar a linha durante uma viagem em paquete em direção a Moçambique em 1964: a fotografia em si não existe mais, mas foi realizada uma imagem bordada com um ponto pequeno. A artista re-fotografou digitalmente este bordado e o conjunto foi exposto tanto no Norte tanto no Sul (de Barcelona à Cidade do Cabo, em Madrid, Maputo, Lisboa, Sidney, Londres) e agora em Ponta Delgada. Mas, aquando da última passagem do equador, entre Sidney e Londres, o bordado perdeu-se: resta apenas esta imagem de imagem, esta segunda transposição, esta mutação final muito pouco legível.

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Vasco Araujo, Exotismo – Yes we don’t have bananas, 2015

Por fim, Vasco Araújo apresenta aqui duas peças em relação com as produções agrícolas da ilha, bananas e ananases. Fiel à sua crítica acerba e irónica dos modos de produção e dos rituais coloniais e pós-coloniais, ele faz acompanhar as obras de pequenas peças sonoras: o quadro com bananas é bem evidentemente acompanhado por Yes we have no bananas. Mas sobretudo, numa alcova aberta, um falso ananás em madeira e plástico, exposto sobre um gueridom, tão ambiguamente sensual quanto um Georgia O’Keefe, oferece-se ao olhar maravilhado, até colocarmos os headphones para ouvir trilos erotisantes jogando sobre todos os tons: “Oh it’s so exotic”. Mais uma vez a aparência não é a realidade: o exotismo, esse olhar de um homem do Norte, não é mais do que uma falsa aparência.

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Vasco Araujo, Exotismo 3, 2014

Esta interessante exposição, cheia de alusões, de aspetos inesperados, de décalages, é um pouco um revelador da ilha, do seu estatuto de entre-deux (uma outra “Deception Island”), também podendo nós tentar lê-la como, finalmente, o fio condutor de todo o festival.

Ler a crítica muito bem argumentada de Vanessa Rato.

Fotografias do autor menos 2&3.

Viagem a convite do festival.

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