Walk & Talk : Raquel e os seus amantes de uma hora


raquel-andrc3a9Artigo original aqui.

Raquel André teve 73 amantes, 30 mulheres e 43 homens, entre os 17 e os 83 anos.

raquel_7

É, em todo o caso, o que afirmou em público, uma noite, na galeria de Walk & Talk ( e que ela reafirmará brevemente em Lisboa, adicionando até lá, em princípio, mais 27 novos amantes – pena que se tenha de falar português, teria gostado de me candidatar). Cada uma destas histórias de amor (excepto duas: um ex e alguém do qual não saberemos nada) durou…uma hora.

amantes-doc-820x547-wt

Na realidade a artista convidou pessoas conhecidas ou desconhecidas a passar uma hora com ela para simular uma intimidade amorosa, no Rio de Janeiro, em Lisboa e em Ponta Delgada. Cada entrevista é acompanhado de uma ou mais fotografias testemunhando de maneira direta ou indireta este encontro íntimo.

Colecionite obsessiva, intimidade ficcional ou real: é ao mesmo tempo uma história sobre a carência e o desejo obstinado de a preencher, sobre a dor da ausência que nada parece curar, e uma exploração dos limites da performance e da impossibilidade dela conservar um vestígio.

vecmwcfhu0qg1e_f2pvmg4wtucaioqoxrvhknsryaq8

Raquel André, Collection d’amants, performance 29 juillet 2015, foto walk&talk/Rui Soares

A projeção das fotografias é acompanhada de uma enumeração lúdica das características dos ditos amantes, como uma contabilidade digna do OuLaPo:

  • dez amantes ofereceram-lhe um presente;
  • ela lembra-se do odor de cinco de entre eles;
  • ela ouviu muito bem o bater do coração de trinta dos seus amantes;
  • 43, fetichistas podófilos, fotografaram os seus pés;
  • ela trocou de roupa com três amantes e tomou banho com sete;
  • um ex pediu-lhe para dizer as palavras que ele teria gostado de ouvir da boca do seu ex;
  • e se nós sabemos que ela partilhou a cama de 48, e que teria desejado ter um encontro mais íntimo com onze, recusou revelar quantos se tornariam verdadeiramente seus amantes após estes encontros.

mw-680

Para além do lado sentimental, psicológico e divertido desta ficcionalização, é o processo performativo que outorga interesse a este trabalho, a tensão entre o efémero e o essencial, e a obsessão quase doentia do colecionador. Mas aqui a artista parece sempre guardar o controle, não mostra nenhuma fraqueza, não se torna vulnerável: é, no fundo, apenas um jogo, ou em todo o caso ela apresenta-o como tal, sem se aventurar nos terrenos mais perigosos que foram explorados por Marina Abramovic ou Tracey Emin.

Viagem a convite do festival.

Print Friendly, PDF & Email
PartilharEmail this to someonePrint this pageShare on Google+0Share on LinkedIn0Share on Facebook0Share on Tumblr0Tweet about this on TwitterPin on Pinterest0