Viva as putas! (no Museu d’Orsay)

 

11217957_10153487850238311_5884318837091827758_n

Artigo original aqui

Antes de visitar a mostra “Splendeurs & misères, Images de la prostitution 1850-1910”, no Musée d’Orsay, nos perguntamos com alguma apreensão se a exposição será tão vazia quanto “Masculin Masculin”, tão superficial quanto “L’Ange du Bizarre” ou, ao contrário, tão estimulante quanto a mostra sobre Sade. Contrariamente à minha experiência nesta última, não saí comovido, mas certamente mais culto – a exposição é, em termos pedagógicos, muito interessante; descreve bem os contextos político, social, moral e econômico nos quais se desenvolve a prostituição no século XIX. Além disso, desmonta os mecanismos e descreve atores e lugares. A mostra apresenta a prostituição como um universo codificado, regulado, com leis, guias para o consumidor, maneiras de ser como, por exemplo, os gestos ambíguos que tornam possível anunciar o tom e seduzir o cliente. Assim, Manet, em 1880, ao desenhar somente as botinas, uma parte da panturrilha descoberta e a saia vermelha, diz, com três índices, o que é possível perceber sobre a situação da jovem.

manet

 

Trata-se, certamente, de um olhar exclusivamente masculino. Muito se busca para enfim descobrir a única mulher do grupo, a Castiglione mencionada como coautora, ao lado de Pierre-Louis Pierson, de uma das fotografias apresentadas. Mas isso era previsível. Se a dimensão sócio-histórica é particularmente bem apresentada na exposição (e analisada no catálogo, apesar de algumas repetições de um ensaio a outro), a dimensão fantasmática que cada um, do Courbet da Mère Grégoire ao Picasso da Melancolia (pois as Demoiselles d’Avignon, cujos desenhos concluem a exposição, pertencem a um outro mundo), tenta exprimir, é visível e até evidente. Entretanto, hoje, esse mundo de interdições hipócritas que nos parece tão longínquo, não comove mais. Por falta de libido, sente-se emoção diante da injustiça, face a essa denominação masculina econômica e sexual – talvez seja o diabo de Munch (um dos raros estrangeiros presents, enquanto Paris era a capital das artes e dos bordéis) que melhor a traduz na litografia terrível.

munch-1bis

O único momento de humanidade é, sem dúvida, Toulouse-Lautrec, tão próximo das meninas e que o capta, em dois ou três óleos sobre papel cartão – onde finalmente aparece um sentimento. Os olhares dessas duas meninas traduzem, enfim, uma emoção, no momento em que seu amor homossexual  permite que se reapropriem de seus corpos, de suas sexualidades e de não mais serem objetos. Outros, certamente, denunciam a prostituição – como Octave Mirbeau ou Josephine Butler –, mas o fazem por escrito ou em discurso, não pela arte.

toulouse-dans-le-lit

 

Destaque para a importância conferida à fotografia na exposição (e o ensaio de Marie Robert no catálogo): a maioria das fotos são apresentadas em salas fechadas, proibidas para menores. Com efeito, a fotografia libera o olhar; ela glorifica o olho erógeno; ela tem valor de registro, índice de verdade e é, assim, mais escandalosa. Às belas travessuras de Pierre Louÿs (foto pudicamente reenquadrada por Le Point) ou aos mistérios de Jeandel, preferi oferecer esta bela composição de Disdéri. São pernas de bailarinas da Ópera, identificadas somente por suas iniciais – jovens brotos oferecidos à luxúria dos velhos senhores barrigudos que frequentam o Foyer, um dos grandes lugares de acesso ao submundo.

Eugène Disdéri, Les Jambes de l'Opéra, fotomontagem, c. 1863, impressão em papel albuminado, 11x6,5cm, coll. Laure Deratte

Eugène Disdéri, Les Jambes de l’Opéra, fotomontagem, c. 1863, impressão em papel albuminado, 11×6,5cm, coll. Laure Deratte

12 de dezembro : medalha de ouro para a pior crítica (mas era de se esperar, quando se conhece o sítio)

PartilharEmail this to someonePrint this pageShare on Google+0Share on LinkedIn0Share on Facebook0Share on Tumblr0Tweet about this on TwitterPin on Pinterest0