Uma visita meditativa

Liam Gillick, Factories in the Snow, Fundação Serralves

Liam Gillick, Factories in the Snow, Fundação Serralves

Artigo original aqui.

Havia uma grande sala inundada de luz, naquele dia. Um meia-cauda preto Yamaha só, no centro; nem banco, nem pianista. No chão, uma poeira negra – poliram o piano? Atacaram seu verniz com uma lixa? São aparas de madeira? Uma melodia toca solitária, vagamente familiar e visivelmente interpretada por um principiante. Descer lentamente a longa rampa, aproximar, olhar as teclas que afundam sozinhas, uma por uma, avistar o equipamento eletrônico que tudo comanda. A suposta neve negra artificial no chão não derrete, o suposto pianista não está lá, e a melodia que ouvimos é uma má interpretação da melodia emblemática do que foi, aqui mesmo, a última revolução na Europa. Fim de uma época, fim de uma esperança (ainda que, às vezes, a cantemos aqui: “grandolamos” o governo). De bônus, um losango de luz no chão e uma bela vigia sorridente.

Liam Gillick, Factories in the Snow, Fundação Serralves

Liam Gillick, Factories in the Snow, Fundação Serralves

Essa instalação simplíssima e melancólica é de autoria de Liam Gillick. Intitulada Factories in the Snow, é exibida na Fundação Serralves. Trata-se da primeira de uma série de quarto intervenções da artista nos espaços do museu. Em maio, teremos sua interpretação do Jeu de la Guerre (O “Jogo da Guerra”), de Guy Debord. Vejo como uma conjugação, um jogo de linguagem e de conceitos, tanto quanto de formas, uma desconstrução do espaço. E passo muito tempo a ouvir, ainda que me arranhe os ouvidos, a olhar o jogo da luz e das formas, a me fascinar como uma criança com as teclas que afundam, a deixar meu espírito vagabundear sem limitações.

Vista da exposição, coleção Sonnabend, Fundação Serralves

Vista da exposição, coleção Sonnabend, Fundação Serralves

Nas outras salas, uma excelente exposição sobre Wolfgang Tillmans, acerca do qual escrevo meu próximo artigo, e a primeira de duas exposições da coleção Sonnabend (a próxima será sobre a fotografia, serei sem dúvida mais prolixo). Trata-se de uma ótima exposição, mas o que posso dizer a vocês? Fazer um tópico estudioso sobre a Pop Art e a Arte Povera? Narrar os méritos desses galeristas pioneiros, que elevaram uma ponte através do Atlântico? Há muitas obras bem conhecidas, os Sonnabend tinhas olhos para identificar futuros ícones. Tem-se ali uma antologia de uma parte da arte da segunda metade do século XX, de Warhol a Pistoletto, de Kiefer a Jasper Johns, de Manzoni a Arman. É bastante museológica e muito fria, educative e previsível. Sem muitas surpresas – um Sol LeWitt recentemente desenhado na parede, muito vibrante, ou a assinatura de Picasso em neon vermelho, como uma placa de bar (de Robert Watts).

Barry Le Va, vista da instalação, Fundação Serralves

Barry Le Va, vista da instalação, Fundação Serralves

E uma única favorite, bem ao fundo: a instalação, no chão, de Barry Le Va. Um mapa e uma paisagem, misturando metálico com têxtil, claro com escuro, opaco e brilhante, maciço e disperso, inteiro e fragmentado, ordem e caos. Um trabalho meditativo, igualmente.

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