Um surrealista bem prudente

 

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Antonio Dacosta, I’m late, metro Cais do Sodré

Artigo original aqui.

António Dacosta duvidou muito: se ele é sobretudo conhecido como um dos surrealistas portugueses, experimentou igualmente com o cubismo e a abstração lírica, tendo em seguida deixado de pintar durante anos, antes de voltar ao que eu qualificaria de forma de “bricolage” do expressionismo. O seu catálogo raisonné em linha é bastante bem feito e deverá igualmente aparecer em inglês.

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Antonio Dacosta, O Gasogénio, 1939-40, huile sur toile, 81.7×65.7cm

Dito isto, seja ele importante para a arte moderna portuguesa, um olhar, ainda que rápido e pouco conhecedor, sobre a exposição comemorativa que o Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian lhe consagra para o seu centenário apenas reteve alguns quadros entre surrealismo e metafísica. O seu surrealismo parece moderado, sem excessos nem fulgurâncias, sem violência nem sexo, sem transgressão nem de forma nem de conteúdo. O seu Gasogénio está assim povoado por criaturas bem familiares, bem atormentadas e bem emaranhadas, mas no fundo pouco originais em 1939/40.

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Antonio Dacosta, Cena com um Pêndulo, 1941, huile sur toile, 89.5x51cm

A Cena com um pêndulo é mais interessante, provavelmente porque, num estilo clássico-metafísico, ela retoma alguns temas mitológicos: abutre de Prometeu e tartaruga de Ésquilo, talvez, em todo o caso combinações incongruentes gerando uma atmosfera bem estranha. A androginia do personagem e o seu pêndulo, que pode ser tanto um instrumento de divinação como um utensílio de geometria ou de arquitetura, reforça essa ambiguidade.

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Antonio Dacosta, ST (Menina da bicicleta), 1942, huile sur toile, 65x54cm

Surrealista também esta pintura-colagem dos mesmos anos 40, Menina da bicicleta, onde emerge evidentemente a forma de uma face vazada, janela sobre o mundo, buraco na paliçada (com a pequena régua onde os dois olhos estão também vazados) através do qual o espectador se pode deliciar de uma cena de um erotismo esquiçado apenas, pontuado pelo ás de copas. Não se trata de uma grande audácia surrealista, certo, mas é, em soma, uma composição assaz complexa sobre o olhar.

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Antonio Dacosta, Fonte de Sintra com Busto de Camões, 1987, acrylique sur contreplaqué, 67x86cm

Posteriormente, o trabalho de Dacosta evoluirá em particular para uma utilização repetida de signos simples, a cruz, o tau e a dupla cruz que simboliza a fonte, signos que reencontramos tanto em “paisagens” bastante realistas tanto em composições, por vezes muito sombrias, nos confins da abstração. Esta Fonte de Sintra, de 1987, tempera a sua estilização radical através de um esquisso de um busto de Camões, que o sustenta na história e, poderíamos dizer, o humaniza.

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Antonio Dacosta, ST (Melancolia III), 1988, métal, bois, verre, papier, plastique, acrylique, 29.5x43x10.5cm

Por fim, no fim da sua vida, superando a pintura, ele constrói estas pequenas caixas, compósitas, que ele nomeia, de maneira bastante apropriada, Melancolias, regressando à tradição surrealista da colagem. O paradoxo é possivelmente o facto que Dacosta é conhecido sobretudo pela maioria dos lisboetas e dos visitantes por um trabalho que não se inscreve verdadeiramente nestas linhagens, a sua obra mural extremamente icónica, em azulejos, da estação de metro do Cais do Sodré: um coelho aliciano que está atrasado e que corre, corre, corre…

* uma crítica, no entanto: a pesquisa textual é difícil, estando os longos ensaios divididos pelas páginas, sem possibilidade de pesquisar o conjunto do texto de uma vez

Fotografias provindas do catálogo raisonnée, exceptuando o coelho (Wikimedia Commons, Manuel V Botelho)

 

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