Um pouco de Portugal em Paris

Artigo original aqui.

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Joana Escoval, The past and the present are unified in locations where important events happened, 2014, vidro, poeira de mármore, cobre, 4×11.5x4cm

É um olhar eclético e pessoal sobre a jovem cena portuguesa que a comissária Joana Neves propõe na Fundação Ricard (até ao dia 9 de Maio), e abstenho-me de questionar estas escolhas, sendo as minhas tão recentes e parciais. A visão que exala da exposição parece-me cobrir uma paleta ampla, de um certo minimalismo formal até trabalhos mais politizados.

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Joana Escoval, It arises not from any cause, but from the cooperation of many, aligem de cobre plaquado, 2014

Dum lado, peças carregadas de densidade (uma grande “escultura-desenho” de papel e grafite de Diogo Pimentão, porventura o artista mais conhecido desta seleção) mas também de humor e subtileza: apreciei particularmente a ligeireza maliciosa e um pouco incomodativa de Joana Escoval, tanto a sua ampulheta incoerente, inútil e dissimulada (acima) como as suas linhas quebradas em cobre, imperceptíveis e perturbantes (não graças a uma só causa, mas à cooperação de várias).

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Ângela Ferreira, Mont Mabu, 2013 (ao fondo, Oficina Arara)

Do outro, a instalação de Ângela Ferreira é a que melhor expõe a história, numa trama complexa de correspondências entre documentos de exploração de uma região selvagem de Moçambique (o país de origem do artista), a liteira fúnebre de Livingstone, documentada nas paredes e reproduzida aqui em forma de escultura modernista de grande escala para acolher (desconfortavelmente) as projeções de vídeos, e outros pedaços da história colonial.

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Igor Jesus, O meu pai morreu no ano em que eu nasci, 2014, vidéo HD, 3 min

Por fim, íntimo e comovente, um magnífico pequeno filme de Igor Jesus: o artista, filho póstumo de um pai morto mês e meio antes do seu nascimento, é filmado numa semiobscuridade em casa de uma vidente que invoca com uma extraordinária intensidade interior a alma do seu pai face a uma mesa guarnecida de velas. O filho tecla o seu nervosismo na superfície do sofá, o pai evita-o, e a vidente diz “Vou deixá-lo descer” e depois sopra sobre todas as velas, como um falhanço, uma segunda morte.

Fotografias do autor.

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