Um pouco de Portugal em Paris (2) : conceito, humor, história, mas nunca o corpo, o corpo jamais

¡Von Calhau !, Fincipio et Mesmo Meme, 2015, 2 vezes 60x60cm

¡Von Calhau !, Fincipio et Mesmo Meme, 2015, 2 vezes 60x60cm

Artigo original aqui

A Fundação Gulbenkian apresenta, em Paris, dez jovens artistas portugueses – uma nova ocasião, após a exposição do espaço Ricard, para a descoberta desse cenário. Se abstraímos o discurso curatorial – a meu ver, muito povoado de jargões –, interessamo-nos por duas ou três presenças e por uma ausência. Primeiramente, a presença de um eixo abstrato, conceitual, desnudado: o extremo minimalismo das esculturas de Ana Santos ou a estruturação rigorosa das instalações de Carlos Bunga me deixam um tanto frio, mas desfruto bastante dos quadros abstratos de Sónia Almeida onde às vezes interferem pequenos fragmentos de realidade fotográfica.

João Maria Gusmão e Pedro Paiva, O terceiro burro, 2015, 105x140m

João Maria Gusmão e Pedro Paiva, O terceiro burro, 2015, 105x140m

Um outro eixo é o humor, o deslocamento, a transformação do real. A dupla ¡Von Calhau ! apresenta grafismos poéticos e codificados, derivas de linguagem e jogos visuais de palavras, como pequenas jóias de letras agenciadas em todos os sentidos. João Maria Gusmão e Pedro Palva, sem dúvida os mais conhecidos do grupo, mostram a imagem surpreendente de três asnos “em abismo”, tão mágica e composta quanto os grafismos vizinhos.

André Cepeda, Anti-Monumento, Porto, 2015, 44x56cm

André Cepeda, Anti-Monumento, Porto, 2015, 44x56cm

Entretanto, aos meus olhos, são mais interessantes os artistas que fazem um trabalho político, ancorado no mundo, testemunhas do real. André Cepeda apresenta imagens oníricas, fotografias de detalhes de um improvável Monumento ao empresário, vandalizado, fragmentado, decomposto, em perda de sentido, como um derrisório testemunho da decadência. As suspensões de Carla Filipe contam suas errâncias em Antuérpia, uma anti-Lisboa. Mauro Cerqueira desvela vestígios de um espaço associative no Porto, como uma « escultura social », testemunha da sobrevivência diante da gentrificação.

Carla Filipe, Quatro Meses do Quotidiano de Antuérpia, Bélgica, instalação, 2014, détail

Carla Filipe, Quatro Meses do Quotidiano de Antuérpia, Bélgica, instalação, 2014, détail

O objeto mais histórico é certamente aquele de Daniel Barroca (já visto em Carpe Diem) que retoma fotografias de guerras coloniais (provenientes de seu pai) em que introduz igualmente ambiguidade e silêncio. Ao lado, apresenta uma dupla fotografia bem pequenina, que um motor faz revirar-se diante de nossos olhos: de um lado, um gracioso menino branco e loiro. Do outro uma vítima negra, ferida ou morta, deitada no chão e a rotação é muito rápida para que o olhar possa realmente assimilá-las individualmente.

Daniel Barroca, Mapa de cumplicidades, 2011, 120x140cm

Daniel Barroca, Mapa de cumplicidades, 2011, 120x140cm

A ausência é aquela que se percebe em quase toda arte contemporânea portuguesa: uma grande reticência em abordar as problemáticas de corpo, gênero e sexualidade. Estou longe de tudo conhecer,  mas pouquíssimos nomes de jovens artistas portuguses me vêm à mente quando penso em explorar essas problemáticas (Lizi Menezes, sem dúvida, mas ela é brasileira e vive em portugal). O único que aqui se aproxima é Arlindo Silva e suas pinturas realistas de seua amigos ou de sua mãe. A questão permanece aberta, creio, sobre essa lacuna estética na psiqué portuguesa.

Todas as fotos pertencem ao autor.

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