Trabalhos de memória

 

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Mariana Castillo Deball, Do ut des, 2014

Artigo original aqui.

Será isso, ir ao mais profundo da história da arte, ao mais profundo da memória? A partir de uma coleção brasileira de vulgarização da história da arte, onde as fotografias das salas de museu estão providas de personagem de tamanho real para mostrar a escala, a artista mexicana Mariana Castillo Deball investiga: destas imagens bidimensionais ela produz esculturas a três dimensões, onde o que parece ser uma sucessão cartográfica de estratos arqueológicos escavados no papel aparece sob a imagem, percorrendo as salas, os estilos, os períodos históricos, infligindo uma ferida à imagem. Aqui, Vénus e o Amor de Boucher (na National Gallery de Washington) está corroída por uma lepra (venérea, precisamente?), incisa por uma operação (de carniceiro, precisamente?) que, longe dos charmes elegantes de Boucher, mostra vísceras que diríamos sanguinolentas, e que devoram igualmente o visitante (ndt: Boucher significa carniceiro). Que há por detrás dos quadros?

Na sala vizinha da Kunsthalle Lissabon (até ao dia 20 de Dezembro) – um lugar que, apesar do nome, nada tem de germânico – Castillo Deball apresenta uma forma suspensa que, à maneira de um Moebius, não possui nem interior nem exterior, e que parece rasgada, mas não reconstituível: uma memória de pele sem dúvida, vermelha e mole, Marsyas talvez. Intitulada Moi-Peau, a obra faz eco às ideias de Didier Anzieu: a pele separa o interior do exterior como o ego distingue entre o que é eu e o resto (ou mais ou menos…). Essa peça, na qual não posso entrar, mas que, obrigado, devo contornar e à qual não cesso de me medir, é uma fronteira, aos antípodas do Boucher corroído que, ele, era uma abertura.

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Miguel Angelo Rocha, vue d’exposition, 2014

No mesmo andar, no espaço Parkour (até ao dia 25 de Outubro), Miguel Ângelo Rocha desenha no espaço formas elegantes: um outro confronto entre duas e três dimensões, uma outra ocupação do espaço.

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Yazid Oulab, Nao, 2014

É também uma forma de confrontação que apresenta Yazid Oulab na galeria Caroline Pagès (até ao dia 6 de Dezembro): este mestre do inefável, do assopro, do infinitamente leve mostra aqui numerosos desenhos (incluindo aqueles, por vezes crísticos, realizados ponto uma grafite na ponta de um berbequim) e pregos, sinal da noite dos tempos, pregos de argila cuneiformes da Mesopotâmia. Mas fiquei sobretudo espantado pelas suas obras em arame farpado, desenhos ou escritos: o arame farpado é, diz ele, antes de mais uma memória dos recintos da sua infância argelina quando ajudava os seus pais nos campos, muito mais do que um símbolo de violência, de exclusão ou de reclusão, como pode ser o caso no trabalho do seu compatriota ou em Sigalit Landau. Mas não posso esquecer que no ano do seu nascimento (1958), a menos de cem quilómetros da sua cidade Sedrata, erigia-se a ligne Morice. E é a palavra Não que está escrita lá, sem traços da palavra Sim.

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AnaMary Bilbao, Untitled (Fallaciuos memory M1), 2014

Na pequena sala vizinha, ficamos muito tempo diante do trabalho formal muito interessante de AnaMary Bilbao (igualmente até ao dia 6 de Dezembro), que pousa e retira, que lembra e que esquece, de maneira metódica e serial: um desenho geométrico feito com régua e esquadro, uma camada de gipsita colorida opaca, e o mesmo desenho reconstituído de memória de mão levantada arranhando a gipsita. Este minimalismo memorial que as incertezas da mão vêm delicadamente perturbar é simultaneamente muito simples e muito forte. E esta prática não está ausente de similaridades com as escavações de Castillo Deball, em mais puro, em menos atrativo. A seguir.

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