Arquivo de etiquetas: Porto

If I were a rich (African) man

20150424_160149

Vista original

colecionaria a arte contemporânea africana (ou seria, mais precisamente, um colecionador africano de arte contemporânea), compraria obras (por vezes secundárias) de artistas reconhecidos e algumas peças não muito caras de jovens artistas, seguiria os conselhos de um artista e de um curador africanos muito conhecidos, concederia muitas entrevistas sobre a minha coleção, falando mais de política, civilização, respeito por África que das minhas peças, mas teria o cuidado de não comprar peças demasiado radicais (o que poderia chocar o meu sogro), constituiria uma grande campanha de relações públicas (que me traria belos artigos elogiosos), desmentiria tão elegantemente quanto possível as alegações sobre a minha fortuna adquirida através de meios questionáveis e minimizaria as reações negativas que daí poderiam resultar, e mostraria a minha coleção nos lugares mais prestigiosos aos quais poderia aceder, primeiro Veneza e agora (mesmo se é um pouco menos glorioso – mas menos arriscado – que Veneza) o Palácio de Cristal, no Porto (até dia 17 de Maio).

abdoulaye-konatc3a9-linitiation-2004-kendell-geers-twilight-of-idols-2-2009

Abdoulaye Konaté, L’initiation, 2004 & Kendell Geers, Twilight of idols 2, 2009

Se esperam encontrar aqui uma versão atualizada, dez anos depois, de Africa Remix (cujo comissário trabalha agora para Sindika Dokolo), não venham cá de propósito, ide à praia ou a uma degustação de vinhos do Douro. Se o argumento é bastante similar (dar o merecido lugar à arte africana), a amostra é bem mais limitada, e a exposição tem uma falta cruel de obras realmente importantes. Uma amostra limitada? Há 38 artistas na exposição; e nove outros em cartaz mas – pelo menos quando lá estive – sem obras deles em vista: é ainda mais “deplorável” porque entre estes ausentes havia alguns pesos pesados, como Mounir Fatmi, Minnette Vari, Tracey Rose e Zoulikha Bouabdellah. Entre os 38 artistas há então 15 Sul-Africanos e 6 Angolanos, e estas duas nacionalidades representam assim um pouco mais de metade das obras apresentadas. Ficamos felicíssimos ao encontrar David Goldblatt, Santu Mofokeng, William Kentridge, Marlene Dumas, Kendell Geers de um lado, Delio Jass e Edson Chagas do outro; mas um só Tunisino, uma só Egípcia, nenhum Marroquino ou Argelino, limita-nos já ao sul do Saara. Os outros países representados no máximo por um ou dois artistas são o Mali (Seydou Keita, claro), o Quénia, a Nigéria, os Camarões (sem Barthélémy Toguo nem Pascale Marthine Tayou, aliás, mas com as impersonificações fotográficas de Samuel Fosso e uma cortina de pérolas real de Billi Bijocka, talvez menos perturbantes), o Zimbabué e Madagáscar (com uma excelente parede preta de Joel Andrianomearisoa): um pouco curto, mesmo se uma pretensão de exaustividade teria sido ridícula? E um não-especialista em arte africana como eu pensa já em dez ou vinte nomes dos quais lamenta a ausência.

kara-walker-this-the-first-state-after-deployment-2008-papier-coupc3a9-10-8x24-1x14cm1

Kara Walker, This, the first state after deployment, 2008, papier coupé, 10.8×24.1x14cm

Bom: a crítica é chata, mas as obras valem a pena? Impressionaram-te ao ponto de ficares boquiaberto? Fizeste belas descobertas? Assim-assim. Nem os “fuck you” tão vistos de Kendell Geers, nem o autoerotismo bordado de Ghada Amer, nem as peças fortes, preciosas mas demasiado previsíveis de Yinka Shonibare, nem as estátuas vudu de Nick Cave (em cima), me cativaram verdadeiramente. Gostei, de entre os artistas mais conhecidos, das pequenas figurinhas de Kara Walker, ligeiras e frágeis, jogo de sombras comovente e violento, e também da mão bicolor de Berni Searle; apreciei que artistas menos reputados tenham tido aqui a ocasião mais rara de fazer respirar as suas obras, como a parede onde Abdoulaye Konaté declina os seus totens-tarots (já mostrados em Africa Remix).

michele-mathison-knife-fight-2012-110x110x50cm1

Michele Mathison, Knife Fight, 2012, 110x110x50cm

Poucas descobertas marcantes: ao fundo do primeiro piso (globalmente de melhor qualidade que o rés-do-chão), uma escultura de machetes de Michele Mathison, simultaneamente radical e formal, de cortar a respiração, e quatro cadeiras assombradas do casal germano-queniano Ingrid Mwangi/Bobert Hutter. Não saímos demasiado desiludidos, apesar de tudo.

Artigo original aqui.

Fotos do autor. 

Da incerteza da representação

 

Prospections-15-530x557

Valter Ventura, Prospections n. 15, 2011, 87x80cm

Artigo original aqui.

São antes de mais fotografias de bruma, formas indistintas, apagadas, dissolvidas, onde temos dificuldade a distinguir uma ponte, uma cerca, uma árvore, um gasógeno talvez e, aqui, diríamos, para-lamas, forma primitiva e indefinível. Que fazer diante destas fotografias, que dizer, senão interrogar-se sobre a representação, sobre a distância entre a realidade e a sua representação?

Precedent-Map-1-530x459

Valter Ventura, Precedent Map n.1, 2013, 87x100cm

Todo o trabalho de Valter Ventura torna ao torno deste dilema e a sua exposição na galeria Kubik, no Porto (até ao dia 6 de Dezembro), um “compêndio de nada”, explora este quiasmo, esta tensão, seja pelo artifício da bruma ou pelo da cartografia. O mapa é igualmente fonte de incerteza, a sua adequação com o território é sempre questionada (mas aqui não existe ironia houellebecquiana, estamos mais do lado da escala de Borges ou do simulacro de Baudrillard) e Ventura engana-nos com estes pseudo-mapas de paisagens indeterminadas onde cremos reconhecer cumes de montanhas e fundos de vales, mas que são apenas folhas de papel amachucado e estalado.

kubik06-530x671

Valter Ventura, The pretension of seeing, 2014, chaque 18x12cm

E claro, nesta procura da sempre inadequada representação, é ao médium que nos encontramos inevitavelmente confrontados: que acontece então à essência mesma da fotografia, da sua ontologia enquanto médium e enquanto material, além da imagem? Como outros fotógrafos que se posicionam nas suas margens (por exemplo, em registos diferentes, Alison Rossiter ou Silvio Wolf), Ventura dedica-se à superfície sensível virgem, antes da intervenção do operador, uma fotografia pré-histórica de certa forma. Desenvolvendo placas fotográficas virgens de diferentes marcas e diferentes tipos (preto e branco, cor, diapositivos, infravermelhos…), revela assim que ainda antes de terem sido utilizadas elas carregam já informação, ver imagens: como pode então a fotografia ter a pretensão de mostrar a realidade quando esta já está marcada, controlada, normalizada, deformada pelo suporte fotográfico ele mesmo, ainda antes de ser representada?

kubik-1-530x797

Patricia Geraldes, Paisagem intuida, 2014

Ao lado, a obra apresentada no pequeno cubículo da galeria, se ela joga assim com a representação, fá-lo de maneira mais ligeira: não é uma longa cabeleira negra que Patrícia Geraldes nos mostra aqui jorrando da parede por trás da qual ela estaria prisioneira e se misturando em caracóis sombrios e sensuais no chão, isto não é um brasão erótico, é uma paisagem intuitiva, uma cascata de fios negros caindo no chão.

Fotos: cortesia da galeria.