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Em direção do fim do mundo…

Artigo original aqui.

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Do casal Detanico e Lain esperamos, se nos basearmos no trabalho passado, poder antecipar um pouco a exposição seguinte, em ocorrência a da galeria Vera Cortês (até dia 7 de Março): histórias de estrelas e de tipografia, de tempo e de alfabeto, de imagem e de transmutação.

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E, claro, mesmo permanecendo nesse mesmo território, a exposição está repleta de surpresas. Ao lado das esperadas estrelas, cujo nome se exprime em círculos concêntricos, outras constelações vêm o seu nome patente em estratos horizontais onde se percebe o eco de uma grelha de Alighiero Boetti, redesenhando as letras o mapa celeste. Existem sempre múltiplas portas de entrada nas obras do duo, o nome, o plano, a intensidade (ponderal ou luminosa), a distância, como uma equação pejada de numerosos parâmetros desconhecidos presenteada à nossa perspicácia.

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Numa outra sala, as palavras de um texto sobre as nuvens são transformadas em lanugens nubladas num vídeo que as faz suceder-se lentamente, através do sopro de um vento oriental de velocidades variáveis, no qual uma sucessão (temporal) cria uma perspectiva (espacial).

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Um jardim de pedras japonês anima-se no écran graças a um programa de seleção de pixéis; embalado por uma música lancinante, este vídeo vibrante recria um espaço de meditação, ver de oração.

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A obra mais forte da exposição parece muito simples à primeira vista: vinte e quatro quadros, do mais branco ao mais negro, estando os do meio povoados por um caos de caracteres gregos. Pouca coisa, parecerá, exceto que o que vemos aqui esmiuçado é o livro do universo, a história do mundo; cada letra corresponde a uma estrela, indicando o brilho, de α a ω. De quadro em quadro, como num zoom à maneira de Charles e Ray Eames, a tipografia muda, de 1000 no primeiro quadro, inteiramente branco porque englobado no α original que aqui é gigantesco, à tipografia 1 no último, onde as letras são tão ínfimas que se tornam invisíveis a olho nu, onde as estrelas se apagaram e a luz desapareceu, onde o mundo chegou ao seu termo. Com elementos extremamente simples, com uma grande economia de meios, Angela Detanico e Rafael Lain realizaram aqui uma obra particularmente forte, e emblemática da sua abordagem.

Fotografia: cortesia da galeria ©Bruno Lopes