Sebastião Salgado : os óbices de Génesis

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Sebastião Salgado, Aux confins du Sud

Texto original aqui.

Três óbices ameaçavam a exposição Génesis de Sebastião Salgado; ela não escapa a nenhum dos três, mas é no entanto uma bela exposição, donde se sai crítico mas encantado.

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Cérémonie Amuricuma, Haut-Xingu, Matto Grosso, Brésil, 2005

O primeiro seria, como é sempre o caso com Salgado, de conceber fotografias demasiado espetaculares, demasiado impecáveis, demasiado ‘National Geographic’ (mesmo sendo elas a preto e branco). E temos com efeito paisagens espetaculares, como a nuvem que flutua entre duas montanhas (uma vista extraordinária, mesmo assim). E temos uma profusão de jovens beldades ameríndias ou africanas, nuas e esculturais, ignorando o olhar do fotógrafo, salvo raras exceções, as velhas e as feias.

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Sebastiao Salgado, Indiennes Zo’é, Para, Brésil, 2009

O segundo óbice seria de fazer etnologia barata, de pretender sustentar um discurso pseudocientífico a partir de uma visita célere e puramente escópica. E nós recebemos, a propósito destas índias Zo’é envergando um barrete de penas e um poturu (um labret de madeira que perfura o queixo) que, nesta magnífica fotografia, tomam banho com numa cena paradisíaca, uma pequena digressão sobre o facto de acordarem uma grande importância à higiene e se lavarem frequentemente: obrigado por elas (Nicolas Hulot passou igualmente por lá: os Zo’é estão na moda). Com o sileno hilário da Nova-Guiné que brande a sua koteka (cabaça peniana), o discurso etno-turístico desvanece-se face à força mítica de uma tal imagem. Estas imagens são fabricadas? Estas cenas são produzidas sob encomenda? Receamos que seja o caso, mas não interessa: nós estamos lá por causa do espetáculo mais do que por causa da verdade etnológica. No Beijo de Judas, Joan Fontcuberta fala da tribo dos Tasaday nas Filipinas, descoberta em 1966 e recém-saída da idade da pedra, sendo capa da National Geographic e transformada em atração planetária, e que se revelará ser uma impostura encenada pelas autoridades locais juntamente com um antropólogo ávido de glória. Não é que as imagens de Sagado sejam manipulações, mas a iconolatria que elas geram participam do mesmo espetáculo.

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Sebastião Salgado, Nouvelle-Guinée

O terceiro óbice seria a dimensão mercantil bonitinha (mercantil porque a Taschen vende o livro Génesis de Salgado em edição especial a 8500 €). Os lucros servem a restaurar ecologicamente o domínio de família de Salgado no Brasil ; empreendimento nobre, confortado à entrada da exposição por um apelo a lutar contra a poluição e a desflorestação. Venha ver a exposição Salgado e terá assim o sentimento de contribuir para um desenvolvimento sustentável…

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Sebastião Salgado, Iceberg entre l’île Paulet et les îles Shetland du sud dans la mer de Weddell, Péninsule Antarctique, 2005

Apesar de tudo, é uma exposição que comove e marca, mesmo se nos esforçamos para não nos deixarmos enganar pelos artifícios. Provavelmente porque ela fala das terrae incognitae, das zonas ainda inexploradas do planeta, com as quais sonhamos todos um pouco sem nunca podermos lá ir (e por falar nisso as vistas de lugares mais conhecidos, Grand Canyon e Monument Valley, das quais ele apaga toda a presença humana, não acrescentam grande coisa). Provavelmente porque, mesmo sendo fotografias demasiado impecáveis, admiramos a proeza, a capacidade de ir explorar os confins e deles trazer tais fotografias. A Amazónia e o Pantanal mostram uma natureza de nuvens, de reflexos, de rios lentos e de quedas de água; a Antártida está povoada de baleias francas e de pinguins, e um icebergue está esculpido como a Ilha dos Mortos de Böcklin. A África é, claro, o domínio da fauna selvagem e dos índios escarificados, ou das transportadoras de tabuleiros ; as vistas do Grand Norte são impressionantes, que se agitem das Nenets da Sibéria ou de um extraordinário encarquilhamento tectónico de Big Horn Creek no Norte canadiano, onde vemos de início um desenho a tinta ou uma xilografia.

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Sebastião Salgado, Big Horn Creek, Yukon Territory, Canada

E também, para mim (recordações longínquas…) porque, nestas séries, Salgado parece fascinado pelas altas montanhas, pelos picos inacessíveis: Tepui Roraima (2723m) e Picoda Neblina (2994m), Fitz Roy (3441m) e Logan (5959m) e o assustador Cerro Torre (3128m) diante do qual o olho do (antigo) alpinista procura uma passagem, uma via de acesso nas paredes verticais de mais de 1000 metros a pique. Leio em qualquer lado que o ‘fixer’ de Salgado, o seu companheiro de aventuras é um guia, e vejo aí uma possibilidade de influência.

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Sebastião Salgado, Cerro Torre, Patagonie argentine, 2007

E assim, apesar das reservas expressas mais acima, saímos fascinados.

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Sebastião Salgado, Manchots à jugulaire sur un iceberg entre les îles Zavodoski et Visokoi, Îles Sandwich du Sud, 2009

Todas as fotografias © Sebastião Salgado.

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