Rentrée à beira-Tejo (I)

Post original aqui.

Vista do mar de palha desde o sítio industrial Baía do Tejo.

Inevitavelmente, numa cena artística que começamos a descobrir, equivocamo-nos, perdendo por vezes o tempo em galerias e salões nos quais as obras parecem destinadas às salas de espera de dentistas, mas fazemos igualmente belas descobertas, quer em galerias mais na moda, em festas de bairro ou em lugares mais insólitos. Comecemos então pelo insólito, os lugares fora dos circuitos balizados , que vos levam até prédios outrora chiques e hoje meio em ruínas e onde subsistem os vestígios de uma instalação veneziana, ou até um bairro social longínquo para aí observar ovelhas e caixas não muito saint-exuperianas ou, melhor ainda, até um parque industrial quasi-desocupado, situado na outra margem do rio. Nesta paisagem tristemente pós-industrial mas banhada pela luz do mar de Palha, seis artistas, após uma residência no Museu Industrial local, apresentam (até ao dia 11 de Outubro) trabalhos num percurso em edifícios industriais abandonados (alguns dotados de belos azulejos) com a comissária Cláudia Ramos. Da maior parte destas peças emana uma sensação de ruína, de poesia dos vestígios; uma traduzida de maneira sonora e vibratória, recriando uma respiração nestes lugares asfixiados, uma outra através de projeções de matérias químicas coloridas sobre as paredes destas fábricas, como que um desafio ressuscitador face à morte programada.

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Dalila Gonçalves, Arquivos de Sombra, 2014, installation

Dalila Gonçalves (já assinalada há algumas semanas) abre pontos de vista direcionados para o exterior, empilha velhos registos podres e petrificados e, numa outra sala, tendo extraído algumas páginas desses livros de contas e tendo-os simplesmente picado sobre hastes em rotação diante de projetores, ela gera assim sombras fantásticas sobre as paredes que, a partir do nada, recriam um universo poético, esquecido, irreal (vi mesmo, imaginação oblige, as caravelas de Vasco da Gama que daqui saíram há quinhentos anos…). A magia ocorre ao conseguir criar, a partir de objetos irrisórios e abandonados, uma poesia efémera e tragicamente irónica.

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Valter Ventura, Resquicio, 2014, photographie

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Projecto Teatral, Empedocles, 2014

Valter Ventura fotografia – como se fossem objetos preciosos – resíduos, desperdícios, clínquer, tijolos partidos ou papéis calcinados, pendurados por ganchos, uma glorificação destes restos que perderam todo valor, recriando um olhar, um respeito, uma história. Cá fora, face a Lisboa, ao pé da água, depois das borrascas da véspera, apenas subsistem, durante a minha visita, uma nova ruína, um monte de areia esvaziado do seu centro, e os mediadores têm dificuldades em falar deste projeto do grupo Projecto Teatral, não dando atenção ao seu título.No entanto, velhas e vagas lembranças (felizmente reconfortadas em seguida pela Wikipédia) permitem ao espectador que, vista a sua idade, tem algumas lembranças helénicas datando do liceu, de identificar ali uma cratera vulcânica e, talvez, um pedestal para mergulhar na lava: Empédocles, claro, que imaginamos assim mais em pessimista absoluto que em vaidoso memorial, adicionando um toque final a esta arte do terreno baldio, da ruína, e da imperceptível beleza poética que daí pode por vezes emanar. Mais do que uma lição sobre o declínio e a crise – industriais, económicos e, poderíamos pensar, morais -, vi ao contrário traços ligeiros de humor, esperança e beleza nesta estranha exposição.

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Pedro Palma, ST, 2014, installation

Ao regressar à cidade, no percurso do Bairro das Artes, onde ainda me restam bastantes lugares a ver, algumas descobertas: em eco às sombras de papel de Dalila Gonçalves, uma escultura suspensa de fios de vidro de Pedro Palma na Biblioteca Camões, das quais as sombras giratórias desenham aeronaves improváveis dignas do Grand Verre duchampiano. Numa galeria-livraria no primeiro andar uma jovem fotógrafa francesa, Camille Aboudaram, mostra o seu primeiro livro, os retratos de 21 jovens, seus semelhantes, todos e todas assim como que a flutuar, entre deux, sem raízes, à espera, transparentes (e o design assim o sublinha, dificultando a visão individual, oferecendo com cada retrato os outros em dégradé): uma artista a seguir.

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Camille Aboudaram, (we are) the ghostly others, 2014, livre autopublié, n17 (Kylie)

Outras galerias num próximo post, nomeadamente, na galeria 3+1 (até ao 8 de Novembro), o trabalho rigoroso sobre a cor de Rui Horta Pereira e a sua reutilização de detritos, velhas telas, tecidos, papéis do seu atelier, criando assim colunas, janelas, como se fora uma transformação alquimista.

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Rui Horta Pereira, Dead Drawing 1, 2014, acrylic and tempera on compressed paper, 27x27x1.5cm

(Fotografia Projecto Teatral cortesia dos artistas e da comissária)

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