Rentrée à beira-Tejo (II)

Post original aqui.

Outras exposições interessantes.

Alvarà

Após a minha primeira descoberta entusiasta do centro de arte Carpe Diem (que celebra os seus cinco anos) regressei ao local a propósito da sua nova exposição (até 20 de Dezembro): é um espaço notável e exigente, e que reclama densidade às obras expostas, para conseguirem resistir face ao espírito do lugar. Consequentemente fiquei menos convencido por certas peças aqui apresentadas, ou demasiado neutras ou bem demasiado ligeiras e irónicas (a obra de arte como lixo…), ao passo que outras, uma vez mais, sabem ocupar o espaço com nobreza e força. Assim Mafalda Santos construiu, num dos salões de honra, uma parede constituída de folhas de papel amontoadas , com discretos efeitos de cor incorporada na borda, e o jogo da luz do sol: é uma destruição, uma biblioteca em ruína, um monumento funerário ao papel, aos livros, um memorial de burocracias mortas. É igualmente uma escultura minimal, um obstáculo de uma falsa e enganadora ligeireza, que é necessário contornar, e ao qual o corpo se compara em vão, por vezes nele imprimindo a sua sombra (também aqui).

RenatoBezerradeMello-©Oxana-Ianin

Na cozinha, é um outro trabalho de memória, um outro monumento ao qual nos confrontamos: este é aquático, marinho, maleável e convexo, de mil matizes de azul, entre o cinzento e o azure. Renato Bezerra de Mello, imaginando o oceano que, desde a sua cidade de Recife, o separava de Lisboa, acumulou centenas de rolos tingidos de azul, empilhados sobre uma longa mesa (também aqui). Dessa acumulação nasce um sentimento de beleza irrisória, de impotência humana e de nostalgia sonhadora, que é reforçada por três vídeos marinhos, embrumados e húmidos que estão ocultados em certos cantos obscuros da sala. Nesta exposição registei o interessante trabalho pós-colonial de Sandro Ferreira, e os “jogos de palavras” de Tim Etchells (muito presente em Lisboa este ano) que acompanhava uma série de fotografias de textos na cidade (graffiti, slogans,…) por jovens amadores, alguns dos quais com muito talento.

Rusty-Mirage-The-City-Skyline-70x100cm-2013

Na galeria Filomena Soares (até ao 29 Novembro), o artista angolano Kiluanji Kia Henda (do qual pudemos apreciar noutros lugares a ironia mordaz e a crítica viva) apresenta um trabalho desta vez mais despojado, mais utópico sobre uma cidade miragem, o sonho de uma cidade no desenho: planos (um Templo, um Palácio do poder abstrato), escavações, o périplo de um homem que persegue o seu sonho. As construções não passam de esqueletos de metal, sem paredes, sem consistência. Não percebi tudo, certamente, mas apreciei este trabalho flutuante, irreal, onírico (ao lado do qual o seu humor sobre o Dubai falha – uma mudança de registo aqui perturbadora).

Golden-Visa

Na galeria Cristina Guerra (até ao 11 Outubro), Filipa César (da qual pudémos apreciar o trabalho no Jeu de Paume) continua as suas pesquisas sobre a Guiné-Bissau, Amílcar Cabral, as guerras coloniais (e os diferentes tipos de minas) e de forma mais lata o questionamento da história, dos arquivos, dos restos. Um vídeo mostra o artista, iluminado por um projetor, lendo de um tom monocórdico, alternadamente em inglês e português, textos sobre Cabral e Bissau, dispositivo árduo, no limite da conferencia académica. A articulação entre este trabalho histórico (e de interrogação da história) muito interessante e, por outro lado, uma denúncia bastante conveniente da política portuguesa atual visando atrair estrangeiros abastados (“Golden Visa”) e reformados para o seu território ao mesmo tempo que encoraja os jovens Portugueses a partir para o estrangeiro (como o artista, que vive em Berlin), contudo, não me pareceu muito convicente.

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Por fim, a galeria Baginski apresenta (até ao 22 de Novembro) uma exposição de Vasco Araújo (igualmente visto no Jeu de Paume e que eu descrevi de forma demasiado simplista como um compatriota de Pessoa…), que apresenta um dispositivo muito interessante, baseado essencialmente ao torno da voz, de vozes. Ao lado de algumas composições exóticas com palmeira, coco e pé de elefante (“é tropical, é exótico e sexy…”), o que apercebemos primeiro é uma dezena de conjuntos de reproduções de quadros ou de desenhos, dois, três ou quatro de uma vez, não colados à parede mais descolados, oblíquos, angulares, adquirindo uma terceira dimensão, formando já uma espécie de escultura onde os retratos se observam ou se rejeitam. São reproduções de obras de Eduardo Malta, artista semi-oficial do reima de Salazar, retratista da sociedade, mas também, mais discretamente, pintor de nus. No salão mundano que poderá se criar aqui entre estes elegantes retratos aristocráticos, sapientes e pomposos, imiscuem-se alguns intrusos, um velho homem negro igualmente digno, duas mulheres africanas nuas, uma mais “étnicográfico-colonial” (e de que maneira), outra erótica em diabo (Inês, Cabrocha Brasileira, quadro que, parece, fez escândalo na altura, em cima ao centro, entre uma elegante em vestido de noite e outra em trajes country). Que quer dizer? Para cada conjunto, um fio, auscultadores, um rótulo: vozes, textos; não é preciso ler os textos, mas antes de mais escutar as vozes, mesmo sem perceber, se imbuir dos sons, das pronúncias, das tonalidades. Aqui se cria o vínculo, aqui ocorre a magia. Vasco Araújo é igualmente um homem de teatro e de ópera, e são as vozes, roucas ou jocosas, ligeiras ou tensas, que constituem o cimento destas peças (e os locutores são creditados na exposição). Estas vozes falam de ciúme, de desejo, de tédio, de inocência e de paraíso, num discurso longínquo, como que coberto por um véu (a maior parte dos textos são citações de peças de José Maria Vieira Mendes) do qual as palavras em si não parecem tão importantes quanto a decoração construída por eles, o edifício de tensão e a indiferença daí resultante.

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E as únicas palavras que restam na memória após deixar a galeria são as palavras dos negros, dos intrusos, que dizem: vejam a cor dos nossos olhos, não a da nossa pele, vejam as nossas parecenças e não as nossas diferenças. A mulata brasileira grita que ela não quer ser utilizada para fazer arte, que ela se transformou num discurso na boca dos outros, que ela é o Outro e que ela está perdida. A violência destes discursos dos colonizados corta com a elegante neurastenia existencial das outras vozes. A última peça faz defrontar-se, através do olho e do ouvido, um coro e uma voz de mulher, de um lado nove estatuetas de madeira negra, nove bustos de negras, fendidas, danificadas, e do outro a reprodução imaculada da Vénus de Milo: diálogos sem saída, nós não temos história. Este dispositivo complexo a partir de contribuições de outrem, reproduções de Malta, textos de Mendes, vozes de doze atores, introduz na quietude histórica pós-colonial um fermento, um questionamento, um olhar que perturba. O título da exposição é regressar ao coração, e também saber de cor(ação), se lembrar.

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