Profanar o museu

MASP, vista geral

MASP, vista geral

Artigo original aqui.

Profanar, o contrário de sacralizar. Um museu no qual as obras expostas não são ícones do passado, inacessíveis, tão carregadas de aura que o sujeito comum não pode fruir, mas devendo adorar em silêncio, obedecendo a um esquema pré-determinado por aqueles que conhecem, que compreendem, que dirigem, conservam e desprezam os visitants incultos, apenas dignos de se aproximarem das obras. Um museu que não é um templo, nas antípodas dessa tradição elitista que vigora na França e em outros lugares, campo dos curadores medíocres e de supostos defensores do patrimônio, alérgicos a qualquer modernidade, a qualquer democratização – não é por acaso que consta no catálogo que Michel Laclotte, então diretor do Louvre, tenha detestado esse museu e não sei o que pensar do fato de Elizabeth II tê-lo apreciado bastante.

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Quando o Museu de Arte de São Paulo passou a ocupar, em 1968, o local atual, um edifício audacioso, de estética pobre, construído por Lina Bo Bardi (cujo marido, Pietro Maria foi director do museu até 1996), a arquiteta decidiu apresentar as coleções no segundo andar, de uma maneira revolucionária. Numa grande sala de concreto com paredes de vidro e vista para a cidade, ela optou por não dividir o espaço, não criar espaços dedicados a tal ou tal escola, mas apresentar as 110/120 obras em cavaletes de cimento e cristal (na verdade, vidro temperado). Os quadros parecem flutuar, os olhos captam vários ao mesmo tempo. Esse percurso foi instalado de 1968 a 1996 e, em seguida, substituído por uma montagem tradicional (salas e paredes), durante quase vinte anos. E acaba de ser novamente estabelecido.

Djanira da Motta e Silva, Vendedora de flores, 1947, 100×64.5cm;  Max Ernst, Bryce Canion Translation, 1946, 51x41cm

Djanira da Motta e Silva, Vendedora de flores, 1947, 100×64.5cm; Max Ernst, Bryce Canion Translation, 1946, 51x41cm

Muitas coisas atraem o,olhar do visitante. Inicialmente, ele é encarregado de determinar seu próprio percurso e constrói sua própria experiência, cria as próprias relações e contrastes. Em uma palavra, emancipa-se. Hoje são dispostas de maneira cronológica e estrita 17 fileiras, 119 obras (90% pinturas), sem que haja conformidade com escolas ou proveniências. Uma pintura hierática e mestiça de Cuzco (Nossa Señora de los Remedios) ao lado de um autorretrado de Rembrandt, ou ainda a situação de vizinhança entre Max Ernst e a pintora naïve Djanira da Motta e Silva, às margens da história da arte oficial. Não se trata apenas da recusa política de uma visão eurocêntrica, ou da vontade de justapor artes da Europa, América e África ou arte nobre e arte popular ou, ainda, Norte e Sul. Trata-se também de incitar a ver diferentemente, a liberar-se das limitações e dos preconceitos, sejam estes científicos ou históricos. É até o contrário de um museu (como por exemplo a Tate), em que somos levados pela mão, onde nos é dito o que ver e onde somos alimentados por um pensamento prédigerido, qualificado, mas insípido.

MASP, vista geral

MASP, vista geral

Nessa apresentação, as obras de arte não são mais janelas para o mundo, revelações etéreas, objetos de luxo. Elas são, primeiramente, objetos, resultado o trabalho de um artista. Não estamos num white cube (o livro de O’Doherty será publicado oito anos mais tarde), mas no cerne de um princípio de realidade. Quando, em 1993, Stoichita escreve L’Instauration du tableau, ilustra a capa do livro com uma pintura de Cornelius Norbertus Gijsbrechts, representando o verso de um quadro. Aqui, também, vemos o verso, as pranchas de madeira, as etiquetas, todos esse “hipertexto” que acompanha a imagem pintada. Circulamos ao redor, nos comparamos à medida real da obra e não somente a uma imagem eidética. Além disso, as etiquetas encontram-se no dorso das obras: para desfazer o laço vicioso que nos leva a ler o nome do pintor antes de ver a obra e que determina nossa opinião antes mesmo de olhá-la. Esse esquema que nos confronta primeiramente à própria obra, antes de nos informar, nos esclarecer, antes de confortar nossa intuição ou, ao contrário, de nos conscientizar da extensão de nossas lacunas ou de nossas preconcepções (“portanto, eu apostaria que era um Cézanne…”).

Amedeo Modigliani, Lunia Czechowska, 1918, 81×53.5cm & Leopold Zborowski, 1916-19, 100x65cm

Amedeo Modigliani, Lunia Czechowska, 1918, 81×53.5cm & Leopold Zborowski, 1916-19, 100x65cm

Foi assim que, alguns anos antes, a arquitetura inovadora do Centro Pompidou (Paris) perdeu sua força em razão de uma museografia das mais clássicas, quarenta antes da adoção, pelo Louvre Lens – para grande espanto dos pedantes retógrados habituais – de um esquema de apresentação bastante similar, uma aproximação realmente revolucionária do museu. Os historiadores citam alguns exemplos de museografia anteriores (como a sala de Lissitzky em Hanover, em 1927, ou os racionalistas italianos), mas essa dimensão crítica, política, do museu é, em 1968, realmente inovadora. Ela desestabiliza, desorienta, desterritorializa, conduz a um olhar novo, livre, nômade, rizômico, como diriam alguns. Sua reinstalação é um ato de afirmação, num país que hoje possui muitas dúvidas.

MASP, vista geral, versos de obras. No primeiro plano, Marcelo Cidade, Tempo suspenso de um estado provisório, 2011, 182x100x38cm

MASP, vista geral, versos de obras. No primeiro plano, Marcelo Cidade, Tempo suspenso de um estado provisório, 2011, 182x100x38cm

Certamente, poderíamos desejar mais fantasia, menos alinhamento, percursos menos lineares, mais oblíquos, cavaletes tradicionais, dispostos com menos cuidado, distâncias, em suma. Quanto às obras, elas vão de um mármore helenístico da deusa Higia (a irmã de Panaceia), do século IV a.C., até Tempo suspenso de um estatuto provisório (2014), do brasileiro Marcelo Cidade (1979), que consiste emu ma placa de vidro blindado que evoca os cavaletes de cristal, com dois impactos de bala. A única estranheza desse conjunto que mescla obras-primas europeias, arte brasileira e estátuas yorubás: a ausência quase total da arte abstrata. Parece que os Bardi – que eram muito cultos – consideravam que a arte abstrata era produto de um complô imperialista Americano, com a finalidade de dominar o mundo. Apesar de existir aí um grão de verdade, trata-se assim mesmo de uma visão muito redutora. Mas isso não atrapalha, enfim, o prazer da visita!

Fotos 3 e 6 do autor.

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