Ponteiros dos segundos e canetas BIC, o inexorável tempo que passa

Post original aqui.

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Dalila Gonçalves, Sustenido, 2014

A exposição de artistas austríacos, dinamarqueses e portugueses ao Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian (até ao 21 de Setembro) parece um pouco desigual (certo, os artistas vêm todos de pequenos países que foram ameaçados, ver anexados pelos seus poderosos vizinhos); ela quer-se a ocasião de falar de dicotomias, de rupturas, de diferenças. Ela é antes de mais a ocasião de meditar sobre os distanciamentos linguísticos: o seu título em português é “Daqui Parece Uma Montanha”, o que, em francês, mas também em inglês e dinamarquês se diz mais ou menos “a relva do vizinho parece sempre mais verde”, enquanto que em alemão o título evoca as cerejas no jardim do vizinho (e o título inicial em português, abandonado em seguida, falava da galinha da vizinha…). Uma vez isto adquirido, o propósito perde-se um pouco nas diferentes proposições artísticas; demasiadas, sob pretexto de sublime, mostram banalidades paisagísticas, montanhas grandiloquentes de Gregor Graf, grutas marinhas misteriosas de Nuno Cera ou horizontes de Katharina Lackner, peças bem feitas mas não oferecendo mais de pontos de apoio permitindo ir além da aparência, não mais do que a casa de Claudia Larcher.

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Jeppe Hein, Cage and Mirror, 2011

Mais interessantes são as instalações que questionam a relação do espectador ao espaço, e em primeiro a jaula dos leões de Jeppe Hein no centro da qual gira um espelho circular: o espectador que aí se aventura é tomado de vertigem face a esta imagem rotatória, e ele mesmo se torna um objeto de espetáculo para os outros visitantes, dos quais pode fugitivamente aperceber o reflexo no espelho. Mais espetacular é a instalação de Ann Louise Overgaard Andersen, estranha casa na qual se deve deslizar por uma fenda estreita e na qual, ao abrigo dos olhares, pode-se, rampeando, explorar as profundezas, aqui sombrias e sem amplidão, ali ao contrário brancas e marcadas por ogivas luminosas, inferno e paraíso, talvez. Esta sensação de jogo perturbando a posição do espectador no espaço é reencontrada na floresta de fios suspensos de AVDP ou no miradouro de espelhos de Miguel Palma.

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Dalila Gonçalves, Amontoar em Carga e Descarga, 2012-2014

Mas a artista mais interessante da exposição é, a meu ver, a benjamim, Dalila Gonçalves, porque ela soube realizar aqui, com meios deliberadamente éticos, aos antípodas do pseudo-sublime, duas peças simultaneamente divertidas e fortes, agradáveis e incómodas, profundas e ligeiras. A primeira, Sustenido (em baixo) poderia não ser apercebida, por distração, não é mais do que uma fina linha na parede (pensei no equador) mas, do canto do olho, apercebemos um ligeiro movimento: temos ali perto de 300 ponteiros de segundos, finas agulhas de metal por vezes enfeitadas de vermelho que, de maneira tremida, brusca, marcam o tempo. Os motores estão invisíveis, do outro lado da parede, e o tempo desenrola-se, segundo após segundo, inexoravelmente. É uma peça delicada mas inquietante, que diz antes de tudo a nossa impotência, a nossa submissão, mas a sua poesia vem, a meus olhos, da sua fragilidade e dos acidentes que daí resultam: aqui e ali, duas agulhas um pouco torcidas tocaram-se, roçaram-se, e blocaram-se, e o tempo, neste minúsculo interstício do real, parou. Damos por nós a ficar muito tempo ali, esperando a próxima derrapagem, a próxima copulação de agulhas que, na sua vez, parará a marcha infernal do tempo.

Dalila Gonçalves, Amontoar em Carga e Descarga, 2012-2014

A outra instalação de Dalila Gonçalves, Amontoar em Carga e Descarga pode ler-se antes de tudo como um gesto de menosprezo às grandiosas montanhas de Gregor Graf que lhe fazem face, prestando-se ao sorriso: dezenas de canetas bic, as mais corriqueiras que existem, foram parcialmente esvaziadas da sua tinta (gostaríamos de crer que será graças à escrita, da mão da artista, e não por uma banal aspiração) e, alinhadas lado a lado, por vezes partidas, mordiscadas, etiquetadas, elas desenham também um perfil montanhoso, não rochoso e pontiagudo desta vez, mas doce e arredondado como um seio de mulher. Alguns erigem-se em direção ao alto, numa ereção triunfal que vê irromper o suco de tinta preta, outros, coitados, apontam para baixo, vazios, derrotados, de ora em diante estéreis como Onan, ou impotentes. E talvez não seja, da parte de uma jovem artista engagée, uma peça assim tão inocente como se poderia pensar. Ou talvez o autor destes textos leia demasiados textos sobre os gender studies… Em todo o caso, uma artista a seguir!

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Tulia Saldanha, Do Nordeste a Coimbra, 1978

Ainda na CAM, uma exposição (até ao 31 de maio 2015) de alguns Arshile Gorky (cinco telas apenas e uma dúzia de trabalhos sobre papel), mostrando sobretudo a sua influência sobre o surrealismo português (pressinto que me vou interessar mais de perto ao único fotógrafo surrealista do país, Fernando Lemos). Mas sobretudo a descoberta de Túlia Saldanha (até ao 28 de setembro), as suas performances, as suas instalações efémeras, o seu trabalho em comunidade e as suas obras ao negro, evocando a meu ver Chohreh Feyzdjou, não apenas pela forma mas também pelo substrato trágico.

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