Performances de toda espécie

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A Fundação Serralves, no Porto, organizou duas jornadas de performances, um evento modesto, se comparado por exemplo ao Nouveau Festival do Pompidou, em Paris, ou a Performa. Mas o caráter compactado desses dois dias tornou possível uma grande diversidade de abordagens e, evidentemente – como é de praxe em caso como este –, permitiu interrogar-se a própria definição de performance. A simples leitura de um texto (do qual, certamente, não compreendo nada), realizada de maneira mais ou menos deliberada, sem a mínima ênfase teatral e de modo bastante monótono, durante cerca de uma hora, é uma performance (Isabel Carvalho, Tartaruga)?

Loreto Martinez Troncoso, Waiting

Loreto Martinez Troncoso, Waiting

Ao contrário, apesar de compreender ainda menos – posto que se trata de idioma galego –, um monólogo intenso, apaixonado, vivo graças à emoção perceptível da artista, loura viúva trágica errante com uma faca na mão, nas alas da biblioteca, proporciona ao espectador para além da compreensão, uma intensidade emotiva mais próxima da performance do que da teatralidade, supreendentemente cativante (Loreto Martinez Troncoso, A Espera).

Anastasia Ax & Lars Siltberg, EXILE

Anastasia Ax & Lars Siltberg, EXILE

Há performances diante das quais sou somente espectador, observador passivo. Em outras, assumo um papel menor, entretanto essencial para mim. Há performances intensas, que solicitam atenção a todos os instantes e outras que se alongam, visando a exaustão monótona. Como simples espectador, fiquei fascinado por duas performances particularmente enérgicas, até mesmo violentas. A primeira proposta por Anastasia Ax (com Lars Siltberg, Exile) – que destrói com o frenesi de uma bacante aos gritos uma instalação de gesso, situada no hall do museu, e pulveriza tinta preta –, tira o fôlego nos deixa perplexos (no dia seguinte, mudança de ritmo, os arqueólogos fazem uma análise das ruínas).

New Noveta, Chvalia Abutak Amethyst

New Noveta, Chvalia Abutak Amethyst

A outra performance de tirar o fôlego foi realizada pela dupla New Noveta, mais ritualizada, em que duas mulheres pouco vestidas tentavam realizar uma tarefa absurda, sisifiana, construindo um espaço em rede, uma grade, para em seguida o desmantelar, com um impulso de uma energia primária burlesca, muito impressionanate (Chvalia Abutak Amethyst).

Vivo & Loreto Martinez Troncoso, Ao vivo

Vivo & Loreto Martinez Troncoso, Ao vivo

Mais doce, mais harmoniosa, mais meditativa, mais poética foi a performance do duo harpista-massagista Vivo com Loreto Martinez. Uma jovem massageava, com energia sensual, um corpo deitado (que pensava ser feminino, mas no final revelou-se ser um homem com cabelos longos). Ao mesmo tempo, uma outra tocava harpa (seus glissandi e pizzicati correspondiam aos gestos da massagista). A terceira cúmplice acompanhava a ação com ruídos, sons, sinos, risos e murmúros (Ao vivo).

Alex Cecchetti, Marie and William

Alex Cecchetti, Marie and William

Uma das performances mais impressionantes foi realizada por Alex Cecchetti (Marie and William) que, ao traçar espirais na parede com amoras esmagadas, conduziu o público pelo fio de uma narrativa poética um tanto absurda, até o momento em que pensei perceber uma reflexão sobre a própria narrativa: como uma história – qualquer história – se constrói, se desenvolve, se adivinha, entre antes e depois, entre o passado e o futuro, entre o real e o irreal.

Maria Hassabi, Solo

Maria Hassabi, Solo

Sem dúvida, o tipo de performance ao qual sou pessoalmente menos sensível (à parte Vexations, penso) é aquele que lida com a exaustão, com a duração, com a repetição incessante de um mesmo motivo, de um mesmo tema, que podemos apreender e até mesmo experimentar. Um momento cujo prolongamento desconcerta e cansa, que se trate de tambores (Kovacs & Doherty, Increments) ou da apropriação corporal de um tapete (Maria Hassabi, Solo).

Alex Cecchetti, Walking Backwards (2013, Paris)

Alex Cecchetti, Walking Backwards (2013, Paris)

As noites se concluíam com uma performance participativa, em que o coletivo Musa Paradisiaca oferecia o pão (seco) e o vinho aos participantes, num ritual ao mesmo tempo sensual e religioso (Cantina-Maquina). Mas a performance que me deixou a lembrança mais viva foi um andar às arrecuas no parque da Fundação (Walking Backwards), em que, hesitando por minhas pernas pouco estáveis durante a caminhada de costas, acompanhada pela voz de Alex Cecchetti, que me guiava pelas costas, descobri as árvores do parque, suas belezas, suas características. A concentração requerida, a ausência de qualquer alma viva ao redor e a atmosfera poética assim obtida me encantaram.

Aos poucos, nos aproximamos da mitologia e da história, dos louros de Dafne, da beladona afrodisíaca, da melancolia de Blanche Daubin Cabral. Ao final do percurso, sempre de costas, os olhos voltados para o céu, eu escutava a voz doce me lembrando aquele copado florestal que percebi do carrinho de bebe e que voltarei a ver em meus instantes últimos quando, com um óbolo entre os dentes, meu corpo deitado flutuará no último barco. Então, senti as lágrimas chegarem.

Fotografias do autor, exceto a última, proveniente do sítio web do artista.

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