Ocupar o palácio do marquês

Artigo original aqui.

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Susana Anágua, Desvio, 2014

Mostrar arte contemporânea em lugares que, sem serem verdadeiramente ruínas, estão degradados, decrépitos mas carregados de história é um projeto delicado, por vezes incongruente (foi por vezes o caso nas caves do Palais de Tokyo) e por vezes mágico (lembro-me de uma exposição sóbria e violenta de Teresa Margolles num palácio veneziano). O Palácio Pombal, lugar de nascimento do ilustre estadista português, não parece nada de especial a partir da rua mas, além de um jardim tão decrépito como o palácio mas enfeitado com alguns pavões (haverá alguma colusão lisboeta entre pavões e arte?), compreende três andares de salas que adivinhamos terem sido magníficas: decoração rococó, tectos ornamentados, paredes de azulejos, chaminés de mármore…Mas tudo se desfaz sob os efeitos conjugados do tempo, da humidade e da indigência negligente, o soalho está torto e a pintura lasca. Que arte pode resistir num cenário destes? Como um bunker ou uma prisão, o Palácio fantasma, nos antípodas de um white cube, esmagaria obras demasiado descritivas, demasiado ligeiras.

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Susana Anágua, Desvio, 2014

É a inteligência do centro de arte Carpe Diem, a quem foi confiado o palácio, de ter privilegiado, para a exposição em curso (até ao 26 de Julho), artistas que ocuparam literalmente o lugar, e cujas peças como que se misturaram com a arquitetura do palácio. Em primeiro lugar, a meus olhos, Susana Anágua, que literalmente esculpiu a luz nas divisões nobres do primeiro andar: um jogo muito simples de fios brancos, indo de cadeiras danificadas a janelas apodrecidas, seguindo a luz atravessando a rua até ao jardim e o jardim até à rua, recriando um espaço animado que o visitante deve contornar, esquivar por vezes, tomando assim consciência do espaço que o rodeia e da maneira como o seu corpo se situa. A sua cúmplice Ana João Romana completa e amplifica este trabalho através de uma cartografia aquática secreta, feita de índices.

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Edgar Pires, Sem Título / Sala Branca, 2014

Uma outra obra que se integra admiravelmente neste espaço é a tripla escultura de lâminas de vidro de Edgar Pires que, quase invisível num dos salões de aparato do palácio, filtra e difrata a luz, como uma vírgula discreta, efémera, rapidamente esquecida porém inscrita nas nossas memórias. As fotografias flutuantes, entre dois mundos, de Tito Mouraz, os tão discretos jogos de matérias de Dalila Gonçalves, e o sol de pó de grafite de Carla Chaim (mais em baixo) participam do mesmo espírito: uma modificação ínfima da atmosfera que, sem indicações, talvez nem apercebêssemos, mas que introduzem uma tensão do olhar e uma vibraçãoo do espaço, misteriosa e quasi-sensual.

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André Banha, ST, 2014

Enfim, antes de aceder ao jardim, numa das divisões de serviço, antigo escritório talvez, a excrescência monstruosa de André Banha, extrusão de quadrados de porcelana como que vomitada da parede (de uma escotilha em direção ao andar nobre, agrada-me imaginar), enorme, grosseira, inútil, barra o espaço, impede a passagem. Talvez, parece-me, são aqui evocadas as relações entre aristocratas e empregadas domésticas, do poder de uns e da revolta impotente dos outros; não sei, mas é uma instalação que não deixa indiferente.

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Carla Chaim, _Norte_, 2014

Apenas posso esperar impacientemente a próxima exposição em Setembro, para ver se Carpe Diem sabe com efeito fazer perdurar esta inteligência inata de ocupação dos espaços, ou se apenas tive uma sorte encantadora neste dia.

Obrigado a Audrey L. por me ter indicado este lugar mágico.
Todas as imagens são cortesia de Carpe Diem e Pesquisa.

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