O Futuro Próximo

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Wim Botha, Solipsis VII, 2013

Artigo original aqui.

A Fundação Gulbenkian, ator de primeiro plano da cena artística lisboeta, possui múltiplas facetas, além das suas coleções de arte clássica, oriental ou decorativa. Uma delas é o programa Próximo Futuro, direcionado para a arte contemporânea de África e da América Latina (e da Europa), organizando igualmente conferencias, performances, filmes. A exposição em curso (até ao dia 7 de Setembro) tem um título enganador: Artists Engaged? Maybe”. Estaríamos à espera de uma reflexão política e social, e a uma interrogação sobre a tomada de distância do artista relativamente ao seu engajamento. Será sem dúvida uma problemática presente em certas obras, mas mais difícil a identificar noutras, ou então de maneira mais remota: como diz o comissário António Pinto Ribeiro, a política não deve ser o comanditário, mas o sujeito. É provavelmente o que ditou as minhas preferências entre as peças apresentadas, e especificamente os filmes.

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Bouchra Khalili, Garden Conversation, 2014

Em Janeiro de 1959, nos jardins da Embaixada de Marrocos no Egipto, pela mão do primeiro-ministro marroquino, o socialista Abdallah Ibrahim, encontrar-se-iam Ernesto Che Guevara (rumo a Gaza) e o rifenho Abdelkrim Al Khattabi (refugiado no Cairo desde 1947), dois ícones do anticolonialismo. E de que falaram? Bouchra Khalili, que é adepto de fazer surgir a história em modos inesperados, quis recriar essa Garden Conversation fazendo representar (de uma maneira muito austera) um jovem e uma jovem árabes em Melilla, o enclave espanhol rodeado de arame farpado nesse mesmo Rif, cidade onde Abdelkrim fora uns tempos o cádi e onde começara a opor-se à colonização espanhola – cidade onde principiou igualmente a insurreição franquista e que hoje, para além do sintoma do enclave, é sobretudo conhecida pela proximidade dos migrantes subsaharianos que querem chegar à Europa. A câmara atarda-se sobre os bosques onde eles dormem, os trilhos que eles empregam, as vedações protegidas que eles tentam transpor com risco de vida, sem jamais os mostrar. Nós quedamo-nos neste tête-à-tête entre os dois jovens que, filmados de perfil, imóveis, recitam o texto com gravidade. Que texto? Uma reinvenção do que poderia ter sido essa conversa, a partir de escritos e discursos dos dois protagonistas: considerações sobre a luta e a resistência em três partes (Hipótese, Método e Nação). Mas é igualmente um diálogo impossível: Khalili, sempre adepto dos cruzamentos linguísticos, faz com efeito dialogar os seus dois actores em duas versões dialectais muito diferentes do árabe, o homem (Khattabi) em marroquino e a mulher (Guevara) em iraquiano. É talvez a obra da exposição que mais se aproxima desse mítico futuro próximo (ou íntimo).

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Berna Reale, Ordinario, 2013

Mais engajadas, mais brutais são as performances filmadas da artista brasileira Berna Reale (que é para além disso criminóloga), que falam de poder, de violência e de vítimas. Em Ordinário, ela reúne ossadas de pessoas desaparecidas e transporta-os num carrinho com uma plataforma (como os carrinhos nos quais transportávamos os cadáveres nos campos de batalha) através das ruas arruinadas da cidade brasileira de Belém do Pará, de negro vestida, trágico anjo da morte. Em Palomo, montando uma sela vermelha, em uniforme de polícia complementado de uma viseira/açaimo, ela patrulha as ruas do centro, e em Soledade, auriga em tailleur chique, Berna Reale conduz um quadriga de porcos nas ruas de um bairro conhecido pelo seu supermercado da droga. Estes rituais de aparência absurda fazem surgir uma ironia do caos, uma poesia trágica da violência. Um nome a reter.

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Simon Gush, Sunday Light, 2013

O sul-africano Simon Gush filma os domingos de Joanesburgo, quando os edifícios de escritórios estão vazios, quando, sendo tudo regrado pelo trabalho, o tempo se alonga, o alheamento se instala, as ruas desertas são animadas apenas por alguns transeuntes perdidos. É um muito belo poema urbano em preto e branco que se termina por uma sequência de quatro homens com capacetes, deitados sobre um telhado de vidro, parecendo dormir mas que, eles, trabalham ao domingo, dia onde não são incomodados pelos ocupantes do edifício. Uma reflexão sobre o tempo social, sim, mas sobretudo o filme de um amante desta cidade, que sabe muito bem como fazer a atmosfera estranha. E, para não falar somente de filmes, gostei da escultura alada de Wim Botha, como um Ícaro espedaçado no chão, instalação de hastes de madeira, de néons e de penas, ligeira, flutuante, transitória (acima).

No catálogo, entre outros, um texto interessante de Carolina Ariza sobre a deambulação urbana, de Baudelaire e Benjamin aos artistas contemporâneos sul-americanos, um tema que, entre Debord e Tichy, me interessou frequentemente.

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