Na fábrica de máquinas de costura

Artigo original aqui.

A uma hora do Porto, a sul, numa antiga fábrica de máquinas de costura, um centro de arte alberga duas coleções muito interessantes aí depositadas há algum tempo; uma de arte contemporânea de Norlinda e José Lima; a outra (da qual falarei em breve noutro texto), de arte singular e arte bruta de Richard Treger e António Saint Silvestre. A propósito, é surpreendente neste país o número de coleções de razoável tamanho albergadas em locais públicos (como neste caso) ou privados.

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Dan Graham, Model, 2011 e Ana Cardoso, Monologic, 2010

A coleção Lima é obviamente bastante eclética, constituída por artistas internacionais e Portugueses, reconhecidos ou emergentes, e a exposição em curso privilegia, felizmente, mais a descoberta do que a consagração, sem que a classificação por sala (da autoria do comissário Miguel Amado) seja sempre convincente. Certo, começamos pela frieza etérea de uma maquete de vidro e alumínio de Dan Graham sobre um suporte, mas ela está rodeada das vibrações de oito grandes pinturas monocromáticas sobre algodão da jovem Ana Cardoso: uma reflexão sobre a tela-objeto lado-a-lado de uma reflexão sobre o volume.

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Mafalda Santos, Showall, 2009, e Isabel Simões, ST, 2008-2009

Um pouco mais além estão colocadas, uma ao lado da outra, duas telas de duas jovens artistas portuguesas: à esquerda, Mafalda Santos, da qual tinha já reparado a parede de papel mergulhado em luz (e que mostrara recentemente composições igualmente geométricas na galeria Presença), revisita aqui a estruturação topológica e colorida de um espaço frio, linear, rigoroso. À direita, Isabel Simões, que paralelamente participa em estranhas performances corporais, propõe formas mais fluídas, translúcidas, moirés, oblíquas: é uma vista de cima sobre o soalho do seu atelier, deformada por uma perspectiva abstratizante, vazia de toda presença, onde os objetos não são mais do que traços fantasmáticos, cercada por um vazio branco, diante do qual o espectador se sente incerto, impactado, suspenso. Dois exemplos muito típicos de uma arte contemporânea portuguesa frequentemente preocupada pela questão do espaço e da sua percepção.

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Carlos Noronha Feio, 3 2 1 0 A A and Away 1 2, 2011

Mais político e mais alicerçado no real é o trabalho de Carlos Noronha Feio, também ele trintenário: um imenso tapete de Arraiolos repleto de motivos bélicos, aviões, bombas, cruzes gamadas, no qual o modo de produção evoca imediatamente Alighero Boetti e as imagens das bandas desenhadas. Nos antípodas, uma bela sala pura e coerente de Francisco Tropa em redor da pirâmide.

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Marta Maria Perez Bravo, Proteccion, 1990

Da Cubana Marta Maria Perez Bravo, da qual já tinha admirado a violência mística e sensual, esta fotografia de uma mulher-rosa coberta de espinhos, intocável, inviolável, in-cariciável, in-amável.

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Daniel Barroca, 5 Obstructed images, 2011

A sala consagrada à guerra apresenta, pelo meio de peças um pouco simplistas (transformar as armas em mobília, a espada em arado), uma instalação de Daniel Barroca cativante: uma mesa com fotografias de soldados coloniais bebendo cerveja e comendo, creio, um leitão assado. Não há violência guerreira, apenas um momento de descanso, uma cena alegre para esquecer os horrores do “cu de Judas”, talvez. Mas cada um dos vinte militares se torna invisível através de um copo negro de fuligem pousado sobre a sua cara (e sobre o leitão), cada um destes soldados é obliterado, reenviado às trevas, apagado da história. Talvez seja esta fuligem oriunda da aldeia guineense que eles incendiaram, talvez seja a premonição das suas cinzas iminentes. Talvez o pai do artista seja um deles, ou tenha sido ele a tirar a fotografia, e o filho tente desesperadamente exorcizar estas memórias, como todo um povo o tentou fazer no pós-1974: é de memória e de herança que se trata.

E o interesse desta exposição é de não ser apenas um remanescente da coleção (que inclui igualmente Beuys e Nan Goldin, Barceló e Combas, Damien Hirst e Rauschnberg), mais também de fazer descobrir estes jovens artistas portugueses que estabelecem problemáticas interessantes.

Fotografia da obra de Carlos Noronha Feio: cortesia de Oliva Creative Factory; outras fotografias do autor.

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