If I were a rich (African) man

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Vista original

colecionaria a arte contemporânea africana (ou seria, mais precisamente, um colecionador africano de arte contemporânea), compraria obras (por vezes secundárias) de artistas reconhecidos e algumas peças não muito caras de jovens artistas, seguiria os conselhos de um artista e de um curador africanos muito conhecidos, concederia muitas entrevistas sobre a minha coleção, falando mais de política, civilização, respeito por África que das minhas peças, mas teria o cuidado de não comprar peças demasiado radicais (o que poderia chocar o meu sogro), constituiria uma grande campanha de relações públicas (que me traria belos artigos elogiosos), desmentiria tão elegantemente quanto possível as alegações sobre a minha fortuna adquirida através de meios questionáveis e minimizaria as reações negativas que daí poderiam resultar, e mostraria a minha coleção nos lugares mais prestigiosos aos quais poderia aceder, primeiro Veneza e agora (mesmo se é um pouco menos glorioso – mas menos arriscado – que Veneza) o Palácio de Cristal, no Porto (até dia 17 de Maio).

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Abdoulaye Konaté, L’initiation, 2004 & Kendell Geers, Twilight of idols 2, 2009

Se esperam encontrar aqui uma versão atualizada, dez anos depois, de Africa Remix (cujo comissário trabalha agora para Sindika Dokolo), não venham cá de propósito, ide à praia ou a uma degustação de vinhos do Douro. Se o argumento é bastante similar (dar o merecido lugar à arte africana), a amostra é bem mais limitada, e a exposição tem uma falta cruel de obras realmente importantes. Uma amostra limitada? Há 38 artistas na exposição; e nove outros em cartaz mas – pelo menos quando lá estive – sem obras deles em vista: é ainda mais “deplorável” porque entre estes ausentes havia alguns pesos pesados, como Mounir Fatmi, Minnette Vari, Tracey Rose e Zoulikha Bouabdellah. Entre os 38 artistas há então 15 Sul-Africanos e 6 Angolanos, e estas duas nacionalidades representam assim um pouco mais de metade das obras apresentadas. Ficamos felicíssimos ao encontrar David Goldblatt, Santu Mofokeng, William Kentridge, Marlene Dumas, Kendell Geers de um lado, Delio Jass e Edson Chagas do outro; mas um só Tunisino, uma só Egípcia, nenhum Marroquino ou Argelino, limita-nos já ao sul do Saara. Os outros países representados no máximo por um ou dois artistas são o Mali (Seydou Keita, claro), o Quénia, a Nigéria, os Camarões (sem Barthélémy Toguo nem Pascale Marthine Tayou, aliás, mas com as impersonificações fotográficas de Samuel Fosso e uma cortina de pérolas real de Billi Bijocka, talvez menos perturbantes), o Zimbabué e Madagáscar (com uma excelente parede preta de Joel Andrianomearisoa): um pouco curto, mesmo se uma pretensão de exaustividade teria sido ridícula? E um não-especialista em arte africana como eu pensa já em dez ou vinte nomes dos quais lamenta a ausência.

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Kara Walker, This, the first state after deployment, 2008, papier coupé, 10.8×24.1x14cm

Bom: a crítica é chata, mas as obras valem a pena? Impressionaram-te ao ponto de ficares boquiaberto? Fizeste belas descobertas? Assim-assim. Nem os “fuck you” tão vistos de Kendell Geers, nem o autoerotismo bordado de Ghada Amer, nem as peças fortes, preciosas mas demasiado previsíveis de Yinka Shonibare, nem as estátuas vudu de Nick Cave (em cima), me cativaram verdadeiramente. Gostei, de entre os artistas mais conhecidos, das pequenas figurinhas de Kara Walker, ligeiras e frágeis, jogo de sombras comovente e violento, e também da mão bicolor de Berni Searle; apreciei que artistas menos reputados tenham tido aqui a ocasião mais rara de fazer respirar as suas obras, como a parede onde Abdoulaye Konaté declina os seus totens-tarots (já mostrados em Africa Remix).

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Michele Mathison, Knife Fight, 2012, 110x110x50cm

Poucas descobertas marcantes: ao fundo do primeiro piso (globalmente de melhor qualidade que o rés-do-chão), uma escultura de machetes de Michele Mathison, simultaneamente radical e formal, de cortar a respiração, e quatro cadeiras assombradas do casal germano-queniano Ingrid Mwangi/Bobert Hutter. Não saímos demasiado desiludidos, apesar de tudo.

Artigo original aqui.

Fotos do autor. 

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