Helena Almeida, artista encarnada

Helena Almeida, A casa, 1979, 40x29cm. Col. Mario Sequeira

Helena Almeida, A casa, 1979, 40x29cm. Col. Mario Sequeira

Artigo original aqui.

A exposição sobre Helena Almeida apresentada na Fundação Serralves, no Porto (até 10 de janeiro), também será exibida no Jeu de Paume, em Paris, com o título Corpus, a partir de 9 de fevereiro. No Porto, ela se intitula “Helena Almeida: A minha obra é o meu corpo, o meu corpo é a minha obra”. Finalmente, fala-se do corpo nessa paisagem plástica contemporânea portuguesa, onde o corpo é quase ausente, onde somente o conceito, o humor, a história são questionados, e jamais a encarnação. Os artistas que têm o corpo como elemento central de seus trabalhos podem ser contados nos dedos de uma mão (há também Jorge Molder e raros jovens artistas, como os brasileiros que aqui vivem, como ela). E isto não é somente válido para a arte contemporânea: estive há alguns dias no Museu de Arte Antiga, onde havia pinturas e esculturas clássicas com corpos, é claro, mas corpos nus? Nem pensem nisso! Ao buscarmos bem, em todos os cantos do Museu, um único busto feminino desnudado, um único (com exceção das virgens amamentando, de algumas amaldiçoadas no Inferno e uma minúscula alegoria em marfim), e o busto é de autoria de um pintor holandês – nem Vênus, nem Graças. Enfim, para compensar, esse belo museu apresenta Bosch e exposições temporárias. Mas que estranho puritanismo nacional nas artes plásticas; não somente sobre o nu, mas até sobre o simples fato de conferir um lugar central ao corpo (mas isso não acontece na dança, nem no cinema – se alguém pode me explicar…).

Helena Almeida, G : S.T., 1968, 130x100cm; D: S.T., 1969, 130x97.5cm. Col. Serralves

Helena Almeida, G : S.T., 1968, 130x100cm; D: S.T., 1969, 130×97.5cm. Col. Serralves

Voltemos a esta grande dama que é Helena Almeida. Ela é a única aqui a fazer de seu corpo elemento único de seu trabalho, e suas fotografias, frequentemente pintadas, são declinações incessantes de seu corpo, num vestido branco, depois preto, com uma busca sempre renovada. Porém, a meu ver, a primeira surpresa acontece com suas primeiras obras, quadros que interrogam a própria ideia de quadro – estamos no final dos anos 60, ela tem 35 anos, talvez tenha conhecido o início do movimento Support Surface. Em 1964, era bolsista em Paris, disse ter ficado maravilhada em Veneza diante das telas com incisões de Fontana. Ela cria então telas, em geral monocromáticas, que escapam do chassis, que se afastam da parede, que deslizam lateralmente, fora da moldura, que se elevam como uma cortina (acima e à direita), que came como um vestido. Trata-se de uma pesquisa ao mesmo tempo sobre o espaço e sobre a fuga para uma terceira dimensão, e também sobre a recusa das regras, dos enquadramentos, justamente. A mais chocante é (acima e à esquerda) aquela em que o quadro está virado para a parede e onde o chassis está coberto por uma gaze fina, semi-transparente e pintada. Somente podemos pensar em Gisbrechts e, então, afirmar que chegamos ao final do ciclo da materialidade do quadro, analisado por Stoichita.

Photo durante exposição na Galeria Buchholz, Lisboa, 1967 (à direita, S.T., 1957)

Photo durante exposição na Galeria Buchholz, Lisboa, 1967 (à direita, S.T., 1957)

Depois, na vitrine, descobre-se esta foto de 1967: numa moldura vazia, a sombra da artista aparece, sua sombra torna-se o motivo (desculpem a foto ruim, feita através do vidro da vitrine, mas a reprodução do catálogo é ainda menos lisível). O questionamento da materialidade do quadro, do chassis e da tela transformou-se em interrogação sobre o lugar que se deve conceder ao corpo da artista no cerne da obra, que será a partir de então habitada por ele.

Helena Almeida, Tela habitada, 1976, nove fotografias, ch. 43x33cm

Helena Almeida, Tela habitada, 1976, nove fotografias, ch. 43x33cm

E aí seu corpo entra em jogo. Em suas Telas habitadas (1976), ela atravessa o espaço de um chassis que se torna, então, uma janela. Em seus Desenhos habitados (1975), uma linha entra e sai do desenho, o traço do lapis torna-se fio, na verdade, crina de cavalo. E se trata de uma ilusão de terceira dimensão que assim é criada, simplesmente. Suas Pinturas habitadas (1975) são ilusões de espelho onde, duplicada, a artista cobre a imagem de seu rosto de tinta azul e o faz desaparecer. Essa tinta azul (teria ela relação com a International Klein Blue?) é um artifício, um obstáculo, uma obliteração dela mesma. Ela marca o espaço, afirma, e, na fotografia lá em cima, é sua boca aberta, arredondada, que está cheia dessa cor azul – silêncio ou inspiração?

Helena Almeida, Ouve-me, 1979 ch. 63x43cm. Col. Galeria Filomena Soares, Lisboa

Helena Almeida, Ouve-me, 1979 ch. 63x43cm. Col. Galeria Filomena Soares, Lisboa

Esse corpo que, até aqui, era sobretudo um assunto sobre o qual ela agia, torna-se pouco a pouco o próprio cerne de seu trabalho. Ela realiza, no final dos anos 70, três grandes séries: Ouve-me (a qual me havia tocado com as Telas habitadas, durante a minha primeira visita à Fundação), Sente-me e Vê-me (registro sonoro dos ruídos dela desenhando, com um texto mostrado num monitor). Ouvi-la? Quando reduzida ao silêncio, a linha preta vem costurar sua boca ou seus olhos (ainda que seja um desenho). No seu primeiro filme, Ouve-me (1979), ela é apenas uma sombra, um fantasma atrás de uma tela, tentando desesperadamente deixar um rastro, poderia-se dizer. Ela é amordaçada, tem os olhos vedados. Ao lado, suas mãos lutam com as portas. Seria uma obra feminista? Ela nega.

Helena Almeida, Seduzir, 2002, 199x129.5cm. Col. CAM Gulbenkian, Lisboa

Helena Almeida, Seduzir, 2002, 199×129.5cm. Col. CAM Gulbenkian, Lisboa

Será o fim de uma luta? Após 1980, teremos somente um corpo, agora mais velho, sempre vestido de preto, sem acessórios, sem mensagens adicionais. Seu corpo vai se mover, ocupar o espaço, se contorsionar e recomeçar cem vezes os mesmos gestos absurdos e derrisórios. Muitas das fotos dessa época mostram somente as mãos e os pés, o rosto é dissimulado, na maioria das vezes. A série mais bonita, na minha opinião, é Seduzir, em que essa mulher de mais de 70 anos (pouco mais que eu, hoje, fato que me emociona, evidentemente) equilibra-se num único pé. Ela usa escarpins com saltos altos, se curva, esboça pequenos passos, se flexiona etc. Além das fotografias, um vídeo é testemunha dessa performance sensível e obstinada – com o momento divertido em que, de repente, um pedaço de maiô branco aparece debaixo do vestido e ela o dissimula rapidamente. Numa das fotografias dessa série, seu pé está pintado com tinta vermelha, uma sola de fogo. Em suas performances precisas, seu corpo ocupa o espaço (seu studio, que antes pertencera a seu pai, escultor oficial do Estado Novo, é sempre percorrido), entrando em relação com ele. Me espanto que a comparação com o corpo de Francesca Woodman, em edifícios abandonados, tenha sido feita raramente (ela é, com frequência, comparada a Cindy Sherman). A mulher idosa, segura de si, e a jovem que é prisioneira de seus demônios mantêm a mesma relação com o espaço, com as paredes, pisos e cantos dos lugares que ocupam.

Helena Almeida S.T., 1996, sete fotografias, 126x179cm. Col. Reina Sofia, Madrid

Helena Almeida S.T., 1996, sete fotografias, 126x179cm. Col. Reina Sofia, Madri

Apreciei menos suas fotografias realizadas em binômio, certamente muito fortes (ela é casada com o escultor Artur Rosa há mais de 60 anos e ele realiza as fotos), mas penso que possuem um impacto visual menor, que a aparição do casal, que permite a entrada de uma dimensão mais real, mais anedótica na obra, dilui um pouco a força da proposta ou, de certa forma, a desvia. O corredor final da exposição mostra uma série sem título de 1996, onde a sombra do corpo da artista é uma pintura no chão que, ao final de sete imagens, ganha em densidade, em presença, mas permanence acéfala. Pouco a pouco, a imagem se forma, se constrói (e, ao mesmo tempo, uma misteriosa linha, no chão, desaparece). Pensamos nas antropometrias de Klein (mais uma vez!) e, ainda mais, nas sombras fotogramadas de Floris Neusüss. Helena Almeida como um anti-Schlemilh, a mulher que se reapodera de sua sombra e afirma seu corpo – aqui, a única encarnada.

Fotos 2, 3 & 5 do autor ( na ausência de melhores)

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