Forma e conteúdo: os três fotógrafos do Prémio Novo Banco

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Ayrson Heráclito, O Sacudimento da Maison des Esclaves em Gorée Díptico I – Sacerdotes , 2015

Texto original aqui.

Como conciliar o discurso e a forma? A imagem e o conteúdo? Estas asserções, que podem parecer abstratas e filosóficas, estão perfeitamente ilustradas na exposição dos três fotógrafos selecionados para o prémio Novo Banco 2015, atualmente no Museu Berardo (até ao dia 11 de Outubro), e do qual o laureado será anunciado dia 22 de Setembro. Este prémio substitui o prémio BES (como o Novo Banco substituiu o banco falido dos Espírito Santo) e confronta um português, um brasileiro e um lusófono africano (tanto pior para Goa, Macau e Timor…). Se a questão colonial (que a cultura portuguesa teve, parece-me, tanto mal a abordar) está omnipresente na seleção deste ano, esta parece-me representar também de maneira evidente (demasiado evidente?) a referida tensão entre forma e conteúdo, com cada um dos três artistas a abordá-la de maneira radicalmente diferente.

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Edson Chagas, vista da exposição

A primeira sala, muito escura, é consagrada ao angolano Edson Chagas, que tínhamos visto em Veneza há dois anos: as suas pilhas de cartazes no chão, contrastando com o esplendor do Palácio Cini, tinham valido ao pavilhão angolano o Leão de Ouro, talvez mais pela pertinência do confronto neste lugar que pela qualidade intrínseca das fotografias de objetos abandonados em grande plano. Enquanto que Chagas testemunhou através de outros trabalhos o seu estatuto de africano da diáspora, entre norte e sul (ler a bela crítica de Roxana Azimi), o artista tomou neste caso o partido de apresentar um obra extremamente estética, mas no qual o propósito parece bem diluído. Seis fotografias e um vídeo de enquadramento idêntico mostram uma praia de areia (na Ilha do Cabo, em Luanda), de noite, violentamente iluminada sob um céu negríssimo; plantados no areal vemos postes em madeira, vestígios de um cesto de basquete. A textura da areia dourada é uma composição abstrata e vibrante de grande beleza. No vídeo um homem passa por lá a pé, e ouvimos o barulho do mar e o rumor dos bares vizinhos. Nesta sala obscura, cada fotografia é uma pequena pérola de composição e de luz, pura e despojada, misteriosa e poética; mas, indo além da relação entre o homem e o espaço, não sabemos muito mais que dizer, não conseguimos articular um discurso, e devemo-nos contentar de admirar a beleza das imagens.

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Ângela Ferreira, A Tendency to Forget, Museu Nacional de Etnologia, Lisboa 2015

Não podemos imaginar contraste mais forte que a segunda sala, dedicada à portuguesa Ângela Ferreira, nascida em Moçambique e cujo trabalho gira à volta das marcas do colonialismo português (recentemente notada na Fundação Ricard). O projeto aqui apresentado centra-se na figura do “pai” da etnologia portuguesa, António Jorge Dias, que com a sua mulher Margot Schmidt Dias, realizou várias missões no norte de Moçambique no território dos Makondés no fim dos anos 50 e no início dos anos 60 sob a tutela do Ministério português do Ultramar (o Moçambique foi até 1975 uma colónia portuguesa). Dias foi também o fundador do Museu de Etnologia de Lisboa. Este museu situa-se perto do antigo Ministério do Ultramar (hoje em dia da Defesa Nacional) e Ângela Ferreira constrói a sua exposição a partir dessa “coincidência” que não o é, primeiro justapondo quatro fotografias de um dos edifícios e três de outro, e depois construindo uma pequena estrutura suspensa, de acesso difícil, retomando a forma do Ministério, onde é projetado o seu filme “A Tendency to Forget”.

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Ângela Ferreira, vista de exposição

Este filme abrange sequências sobre a vida em Moçambique no tempo das colónias, e outras sequências filmadas pelos Dias no território dos Makondés (sendo, curiosamente, as caras dos Negros desfocadas), acompanhadas da leitura de extratos do diário de Margot Dias e dos relatórios políticos enviados por Jorge Dias ao Ministério. Se as sequências da atualidade mostram uma separação quase total entre negros e brancos e a via despreocupada dos brancos da colónia, os textos de Dias esclarecem de sobremaneira a ambiguidade da sua missão (e sem dúvida de toda a etnografia colonial): com efeito, ele tinha também sido encarregado pelo Ministério de uma missão de informação sobre as atividades anticoloniais dos indígenas, atividade que aceitou, parece-me, sem grandes escrúpulos. Se a guerra de independência de Moçambique começara apenas em 1964, havia então já “problemas”, e Dias denuncia a “contaminação” vinda do Tanganyika (em breve presidido por Julius Nyerere), as ideias subversivas e perigosas, a propaganda de Moscovo e do Cairo, isto enquanto a sua mulher ensaia inocentemente a fisiologia racial e se surpreende com a recusa dos indígenas a serem fotografados. Estas colusão entre etnografia e colonialismo, este atraso colonial (é apesar de tudo a época da Guerra da Argélia, das independências das colónias inglesas e francesas, da conferências de Bandung…) admiram mas não surpreendem. Gostaríamos de saber mais sobre Dias, as suas ambiguidades (descubro assim que ele passara toda a guerra na Alemanha nazi) e as suas eventuais reticências. É então um discurso muito construído, muito político, muito coerente que nos apresenta Ângela Ferreira. Mas a forma desilude: sete infelizes fotografias de dois edifícios e um filme de recolhas são insuficientes face ao que poderia ter sido dito e feito sobre este tema denso e radical.

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Ayrson Heráclito, vista de exposição

Após estes dois exemplos absolutamente opostos de dissociação entre discurso e imagem, entre forma e conteúdo, o terceiro artista, o brasileiro Ayrson Heráclito (ver também aqui), consegue, ele, conjugar estes dois aspectos e apresenta aqui um trabalho que é, a meu ver, o mais conseguido dos três. Nesta terceira sala fazem face dois conjuntos, cada um constituído de dois dípticos (um em paisagem, o outro em retrato) e de um vídeo: um conjunto concerne a Casa dos Escravos na ilha da Goréia (Senegal), o outro a Casa da Torre em Salvador da Baía (Brasil). De uma parte e de outra da sala, de uma parte e de outra do Atlântico, dois lugares emblemáticos da escravatura, do tráfico e, diz o artista, de este outro holocausto. Mas não chega mostrar: com dois acólitos negrosvestidos de branco, o artista executa em cada um destes dois lugares um ritual de purificação, de exorcismo, o “sacudimento”.

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Ayrson Heráclito, O sacudimento da Casa da Torre, still vídeo

Indo de divisão em divisão, os três limpam as paredes ocre, manchadas, cheias de marcas obscuras, com, em cada mão, um ramo de folhas que eles friccionam contra as paredes, e depois (e então o som muda) chocam um contra o outro em direção do solo como que para expulsar os maus espíritos. Cada centímetro quadrado das paredes das duas casas, esta atribuída ao mercador de escravos e aquela ao colono, é assim limpa num ritual fascinante, do qual não podemos desviar o olhar. Poderemos um dia purificar? Perdoar? Esquecer? A força deste trabalho vem do facto que a pertinência da proposição é aqui confortada pela escolha das imagens e da mise-en-scène: cenografia, dípticos, formatos retrato e paisagem, harmonia entre fotografias e vídeo, toda a estética concorre à força do discurso. Se eu estivesse no júri a minha escolha estaria feita…

Fotos: cortesia do Museu Berardo.

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