Esculpir o espaço (Pedro Cabrita Reis)

Artigo original aqui.

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Pedro Cabrita Reis, Les lieux fragmentés, Toulon, 2015, vista da exposição, fotografia Joao Ferrand

Uma antiga subprefeitura com os seus vastos gabinetes, a sua majestosa escadaria, as suas molduras, os seus mármores e os seus soalhos – todo um aparato característico da Terceira República. E um artista que a investe, que aí se instala e desenha formas, que esculpe o espaço, o ilumina e o desvia do seu intuito original. Há quase dois anos, em Veneza, admirei (não sendo o único) a forma como Pedro Cabrita Reis ocupara com mestria o espaço de um palácio um pouco decrépito, “aí desenrolando uma arquitetura minimal e precária de traves metálicas e luzes que habitam os lugares de maneira elegante e pujante”. Se, no Hôtel des Arts de Toulon, tanto a história republicana como o estilo arquitectónico institucional estão nos antípodas do aristocrático Palazzo Falier, a maneira como Cabrita Reis ocupa o espaço encontra sempre suporte numa conjunção de base combinando perfis de alumínio, tubos fluorescentes e fios eléctricos negros deliberadamente à mostra, mas esse suporte apurou-se, deixando-nos mais liberdade, mais respiração, incitando-nos a ir de uma sala à outra, oferecendo novas perspectivas – por vezes desconcertantes (curadoria de Jean-François Chougnet, que graças aos anos passados em Lisboa se tornou um elemento de ligação entre os dois países).

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Pedro Cabrita Reis, Les lieux fragmentés, Toulon, 2015, vista da exposição, fotografia Joao Ferrand

O vocabulário de base é sempre o mesmo: materiais industriais muito vulgares, um trabalho de construção in situ, a avaliação do espaço e do corpo nesse espaço. O que resulta, por exemplo, nessa entrada onde o olhar circula de uma escultura luminosa a outra, onde as barras de alumínio cadenciam o espaço e onde os fios eléctricos são desenhos no espaço. Na parede uma pequena “casa”, e aqui tudo evoca a intimidade da casa, “um modelo de um universo comensurável”; no chão, uma torre alveolada feita de seções sobrepostas, massiva e à escala humana, que ao perto se afigura frágil. As suas construções utilitárias, rudes e sumárias, chocam com a decoração elegante, “belle époque” e soberana do Hôtel, perturbando o espaço e a visão, ocupando o terreno e parecendo augurar uma futura destruição do lugar.

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Pedro Cabrita Reis, Les lieux fragmentés, Toulon, 2015, vista da exposição, fotografia Marc Lenot

A luz crua e fria do néon é aqui uma verdadeira matéria, um utensílio de desenhador no espaço. Subindo a escada, encontramo-nos presos na emboscada deste artista caçador, rodeados pelas suas armadilhas oblíquas, deslumbrados nesta ortogonalidade de suportes. Esta arquitetura interior distribui-nos pelas salas laterais.

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Pedro Cabrita Reis, Chambre de musique / Partition N2, alumínio, médium, acrílico sobre aglomerado, tubos fluorescentes e cabo elétrico, 165x228x20.5cm, fotografia Marc Lenot

Numa delas, barras de alumínio e néones suportam círculos obturados, de metal, vidro, pladur, plexiglas ou aglomerado, toda a gama dos materiais de construção: uma perfeição das formas e das relações formais.

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Pedro Cabrita Reis, Cometa, alumínio, médium, tubo fluorescente e cabo elétrico, 210x326x10.5cm, fotografia Marc Lenot

Numa outra, uma forma oval muito pura, com soldagens bem visíveis, tem como tangente um néon, e admiramos a elegância da queda do cabo negro, fluído e sinuoso. Diante de formas tão simples encontramo-nos sem palavras, sem outra interpretação para além da evidência (a casa, a construção…) e meramente sensíveis ao equilíbrio perfeito das formas.

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Pedro Cabrita Reis, Favorite places 1, 2004, alum´ïnio, madeira, vidro, mármore, néon, 260x120x120cm, col. FRAC Bourgogne, fotografia Marc Lenot

A mesma coisa aconteceu na escultura de um ângulo da sala e da sua diagonal (fotografia acima) à qual faz eco um “desenho” de linhas cinzeladas na madeira de uma velha porta com um serrote ou uma lixadeira. A pequena cabana aqui em cima, eco da casa, simultaneamente aberta e fechada, é composta de portas recuperadas; o seu tecto é uma placa de mármore, funerária, parece-me. Será uma ode à precariedade? Mas é igualmente um tabernáculo do qual somos mantidos à distância, uma arca preciosa no qual não podemos penetrar, uma casa, mas que nos rejeita.

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Pedro Cabrita Reis, L’Atelier des enfants, 2015, placas de madeira recuperadas, alumínio, tubos fluorescentes e cabos elétricos, 65.5x210x12.5cm, fotografia Marc Lenot

Por vezes, a gama de materiais enriquece-se: uma prancha de madeira recuperada coberta de gatafunhos coloridos, como uma paleta, e iluminada como uma pintura de um mestre, ou então uma manta de feltro de tons azuis, verdes ou vermelhos, emoldurada e iluminada como um santo sudário.

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Pedro Cabrita Reis, Melancolia, 2015, alumínio, chapéu, tubo fluorescente e cabo elétrico, 37x225x19.5cm, fotografia Marc Lenot

Por vezes roça-se o excesso, e o piscar de olho do mestre surpreende e incomoda, como este chapéu incoerente que parece ter ficado esquecido sobre uma das suas esculturas. Mas Cabrita Reis não quer saber do mau gosto – afirma o próprio.

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Pedro Cabrita Reis, The Sleep of Reason, 4th series (Orange) N1, 2009, acrílico sobre fotografia montada sobre alumínio, 49.5x75cm, fotografia PCRStudio Rodrigo Peixoto

Por fim, uma das salas abriga uma série de doze fotografias, todas recobertas pela metade de pintura industrial cor-de-laranja: essa ocultação parcial marca um distanciamento, uma recusa de se vergar à verdade fotográfica. A maior parte das imagens são imagens de água, de detritos da linha de maré baixa, de dunas, calmas e cativantes. Mas então porque é que a série se chama, a partir de Goya, O sono da razão? O artista entrou num torpor, perdendo consciência do real razoável e atormentado nos seus sonhos por monstros? Sim, talvez, porque no meio destas paisagens serenas surge a morte: o cadáver de um cão ou de um coelho afogado, deslavado, do qual apenas vemos a retaguarda.

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Pedro Cabrita Reis, The Sleep of Reason, 4th series (Orange) N2, 2009, acrílico sobre fotografia montada sobre alumínio, 49.5x75cm, fotografia Marc Lenot

Se as obras de Pedro Cabrita Reis são sempre enigmáticas (e se o artista continua obstinadamente mudo em relação ao seu sentido), o seu conjunto num tal lugar cria um sentimento entre a intimidade e o espanto, entre familiaridade e o assombro, que é raro.

Viagem através de um convite do Hôtel des Arts.
Fotografias 1, 2 e 9: cortesia do serviço de imprensa do Hôtel des Arts. Restantes fotografias do autor.

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