Errâncias fotográficas em Lisboa

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Meteorito

Letícia Ramos, Meteorito, 2014

Dos três fotógrafos apresentados (até ao 7 de setembro) no quadro do Prémio BES 2014 ao seio da (soberba) coleção Berardo em Belém, podemos passar rapidamente sobre José Pedro Cortes que mostra soldados israelitas em cuecas (é sempre melhor do que a apontar-vos a metralhadora) e de zonas de subúrbios sem interesse. A brasileira Letícia Ramos, laureada do prémio, trabalha sobre a escala e a (não) visibilidade: ela magnifica imagens extraídas de um microfilme, os seus meteoritos são esculturas minimais, as suas paisagens desenhos abstratos, a realidade parece flutuante, inatingível. Num dos seus filmes, uma paisagem submarina polar não se descobre que com a luz dos faróis de um pequeno submersível: uma impressão de irreal, de extremo, um jogo de luz fascinante.

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Délio Jasse, vista da exposição, BES Photo 2014, CCBelem

Mas a minha preferência foi para o angolano Délio Jasse, que mostrou caixas pousadas no chão onde flutuavam na água, por vezes colorida, superposições de fotografias, retrato e paisagem urbana, marcadas de um carimbo oficial de imigração. Para ele, que fora durante muito tempo um sem-papéis em Lisboa, o carimbo oficial é um ícone, ou em todo o caso um signo da sociedade contemporânea classificadora e exclusiva. E estas imagens flutuando pelo chão falam de memória, de luto talvez, de nostalgia, mas o seu estado interroga igualmente a essência mesma da fotografia e o seu processo de criação.

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Délio Jasse, série Ausência Permanente, 2014

Jasse trabalha muito sobre a arqueologia fotográfica, sobre a redescoberta de procedimentos antigos, sobre a superposição memorial e a amplificação do arquivo documentário. Ele organiza ao mesmo tempo (até ao 13 de Setembro) uma exposição da galeria de Andréa Baginski num bairro afastado do centro mas trendy da capital, com, entre outros, estes cianótipos de Luanda, das suas mutações arquitectónicas e do fluxo de passantes na cidade: um trabalho de montagem, de justaposição, de conexão. A seguir.

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Vista de exposição Délio Jasse, galerie Baginski

Num recanto da mesma galeria, a sombra das mãos e braços de Peter Schlemihl, enrolada no chão pela jovem artista Lúcia Prancha (em baixo). Lá pert, na galeria Múrias Centeno (até ao 26 de julho), as superfícies negras de Diogo Pimentão (descoberto na galeria Yvon Lambert). Um pouco mais longe (até ao 13 de setembro), o grande fotógrafo João Penalva na galeria Filomena Soares com, em particular, as suas fotografias de chãos, de passeios, de calçadas à escala 1. Apenas algumas descobertas errando nas ruas de Lisboa…

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Vista de exposição Lúcia Prancha, galerie Baginski

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