Do lado dos fantasmas

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Anna Franceschini, Before they break, before they die they fly!, 2014, vídeo, 5’40”

Artigo original aqui.

Dois artistas apostos, um homem português e uma mulher italiana cujas obras ecoam fortemente entre elas, na galeria Vera Cortês até ao dia 2 de Maio. André Romão fala de fantasmas e encarnação, Anna Franceschini de magia e de espectros.

 

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André Romao, Shell (mineral eroticism) 2, 2015, 62.5x75cm

Além de um olho a piscar sem cessar, André Romão mostra aqui dois conjuntos de obras, um formalmente desencarnado (três estruturas banais de plástico transparente) e presente através da voz metálica e do discurso que dela provém, outro de motivos carnais mas de formas depauperadas. How to kill a ghost é o “manual de instruções” difundido por um pequeno altifalante sobre uma destas estruturas em plástico (as duas outras, na sala adjacente, escutam o seu eco, provavelmente), um discurso erótico-trágico, uma interrogação sobre o corpo, a sua presença-ausência, o seu desejo, tudo isto pronunciado (em inglês) por uma voz modificada electronicamente, não reconhecível, como a proteger a identidade do falante.

 

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André Romao, Shell (mineral eroticism) 5, 2015, 62.5x75cm

A sua série fotográfica Shell (mineral eroticism) mostra, ao contrário, corpos de jovens homens nus, muito presentes, muito sensuais; eles ostentam conchas, nas quais a abertura é evidentemente erótica (e a da ilustração acima é da mesma variedade que a de Odilon Redon, que abeirava no Verão passado em Ornans a anatomia por ela simbolizada), mas na qual as pontas agressivas incomodam, de tão falicamente violentas. Estas fotos, que poderiam ser muitíssimo sensuais, são apresentadas sob forma de fotocópias pardas, com grão, empalidecidas: uma outra exploração da tensão entre riqueza assumida do tema e pobreza deliberada da forma.

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Anna Franceschini, Before they break, before they die they fly!, 2014, vídeo, 5’40”

O vídeo contíguo de Andrea Franceschini, Before they break, before they die, they fly! quer-se exercício delicado de magia, no qual objetos flutuam em levitação por cima de uma máquina misteriosa, provavelmente magnética ou indutiva, por vezes diante de um lençol branco e azul, e por vezes numa obscuridade cativante: uma “coisa” científica, claro (sendo que o único objeto que, a um dato momento, escapará ao campo e cairá é, obviamente, a varinha mágica).

 

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Anna Franceschini, Before they break, before they die they fly!, 2014, vídeo, 5’40”

Mas é sobretudo um jogo com a história: desfilam diante de nós, para além da mencionada varinha, pequenos objetos, recordações miniatura evocando a história antiga, o Coliseu, um capacete romano, um capacete micénico (se a recordação dos meus cursos de arqueologia é certeira), a loba romana, três colunas coríntias com folhas de acanto, a misteriosa mão de porcelana segurando uma pequena caixa colorida (ilustração acima), e a estátua jacente de santa Cecília, patroa dos músicos como toda a gente sabe, langorosamente deitada sobre o seu leito de falso mármore e ouvindo um concerto celesta na hora da sua agonia. A levitação mágica destes objetos, a sua oscilação, a iluminação colorida e estroboscópica, o jogo de sombras, tudo contribui a transformar estas bugigangas em objetos de culto, de memória, carregados de aura.

 

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Detanico Lain, Onda, 2010, sal, 250×518.5cm

Falei recentemente da exposição do duo Detanico Lain nesta mesma galeria. A muito interessante Fundação Leal Rios apresenta, numa exposição de obras da sua coleção evocadoras de astronomia (As the earth spins beneath the stars), uma soberba peça destes dois artistas (lado a lado com, entre outros, uma máquina hipnótica de Max Frey, Rotor d220). Onda é um desenho no solo, feito de sal, representando quatro formas de ondas sinusoidais: cada forma corresponde a uma das letras da palavra, aumentando as amplitudes paralelamente ao alfabeto. A palavra e a sua forma constituem um só: é uma obra perfeitamente integrada na linha das suas pesquisas sobre o alfabeto e o éter.

Fotografias: cortesia da galeria, à exceção da primeira.

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