“Devido à chuva a revolução foi adiada”

 

20141004_175215

Angelo Ferreira de Sousa, Portugal, 2006-2014 e Andres Banha, (re)visito(me), 2014

Artigo original aqui.

Belo título provocador de uma exposição comissariada por Patrícia Trindade, num lugar nomeado, de maneira apropriada, Plataforma Revólver (onde as outras exposições me entusiasmaram menos, à exceção das fotografias aeronáuticas de Pedro Guimarães), mas esta (até dia 29 de Novembro), que reúne uma quinzena de artistas, faz as boas perguntas, sobre a crise, a história, a memória.

Certo, alguns dos artistas presentes responderam de maneira demasiado anedótica e sem se distanciarem muito, vídeos puramente documentários de manifestações, cartazes políticos ou rap enraivecido. Mas um roteiro transparece na exposição, conciliando a força da expressão com a pertinência do tema: primeiro somos confrontados à inscrição “Portugal” ao contrário sobre uma parede. O artista Ângelo Ferreira de Sousa inscreveu-a aqui, in situ, um gesto simples e eloquente.

20141004_174327

Ângelo Ferreira de Sousa et Isabel Ribeiro, Portugal, 2006-2014

Encontramos o seu vestígio um pouco mais longe porque, em 2006, essa inscrição adornava as paredes do pavilhão de Portugal em Hanôver, e depois os de uma exposição da Fundação de Serralves em Coimbra: foi destruída pelos serviços do Presidente da República, que devia pronunciar nesse local uma conferencia de imprensa, e não o podia fazer diante de um tal símbolo. Não existe portanto nenhuma fotografia, mas Isabel Ribeiro recriou-lhe através da pintura esse instante que não existiu, como um sinal de fratura e de fragilidade (de que Ferreira de Sousa parece ser familiar).

20141004_173842

Margarida Dias Coelho, Patricia Trindade e Rodolfo Bispo, Resig nação, 2014, pintura mural a água, vista através de André Banha, (re)visito(me), 2014

Ao lado do Portugal invertido, uma seta sobre a parede indica o caminho, a entrada num túnel sombrio feito de tábuas de madeira, um caminho em direção a um futuro retrógrado e inquietante (André Banha, já notado pelo seu sentido de condicionamento de um espaço pela suas esculturas). Ao fim do túnel, dando sobre a luz, chegamos a um prado (onde, claro, a erva é mais verde…) e diante de uma pintura mural plenamente militante (Margarida Dias Coelho, Rodolfo Bispo e a comissária). Existe de facto, parece-me, também uma boa dose de humor e de distanciamento nesta exposição, jogando a comissária (propositadamente, espero) sobre a ambiguidade para nos dar ao mesmo tempo do que nos indignar (e ir gritar para a rua), mas (e felizmente, senão seria apenas agit-prop) do que nos interrogar sobre os nossos mitos demasiado bem estabelecidos. Provavelmente fez ela seu o adágio de Montesquieu: “Não se deve meter vinagre nos seus escritos, deve-se meter sal.”

20141004_171021

Gonçalo Barreiros, Definitivos, 2014, metal pintado, 331x80x1.5cm

Não muito longe dali, na Vera Cortes Art Agency (que será a única galeria portuguesa na FIAC), uma exposição muito despojada de Gonçalo Barreiros: uma escultura por divisão neste belo apartamento burguês. Todas são pontos de interrogação, reenquadramentos da visão, com além do mais uma boa dose de humor. Podemos preferir a ligeireza do desenho esculpido das volutas de fumo (em cima; Definitivos sendo uma marca portuguesa de cigarros baratuchos) evocando uma conversa entre dois homens invisíveis, a elegância da curva de uma pedra ricocheteando sobre a água (Plof plof) ou a surpresa da falsa prancha de pavimento em bronze, à demasiado evidente gravidade de um boneco de neve (com uma cenoura vermelha no chão) ou de uma vassoura partida.

Fotografias do autor

Print Friendly, PDF & Email
PartilharEmail this to someonePrint this pageShare on Google+0Share on LinkedIn0Share on Facebook0Share on Tumblr0Tweet about this on TwitterPin on Pinterest0