De São Paulo a Porto (e de Jerusalém a São Paulo)

Artigo original aqui.

Algumas obras apresentadas na última Bienal de São Paulo são exibidas atualmente no Porto, na Fundação Serralves (até 17 de janeiro). Um conjunto bastante desconexo, o que é inevitável, e o título o justifica. Alguns trabalhos espetaculares, como os imensos mapas murais de Qiu Zhije, mistura de tradição cartográfica chinesa e de imaginário topográfico moderno. Muitos trabalhos políticos, cuja maioria assume formas muito banais – vídeos com depoimentos, reconstituições pomposas, paredes de cartazes. Se sorrimos diante das instruções para policiais infiltrados em manifestações (“troquem os sapatos!”), de autoria de Gabriel Mascaro; se revemos com prazer obras antigas de Cildo Meireles (Zero dollar) ou de León Ferrari (Petição para anular o Inferno), só constatamos duas instalações pertencentes a esse registro – o vídeo multi-janelas do coletivo Chto Delat ?, cuja forma discursiva é tão inovadora quanto a proposta parece ser pouco pertinente, e, sobretudo, o labirinto visual de Voluspa Jarpa.

Voluspa Jarpa, Histórias de aprendizagem, 2014

Voluspa Jarpa, Histórias de aprendizagem, 2014

A partir de um material de sonho – documentos não classificados de serviços secretos brasileiros e americanos –, a artista chilena soube evitar o risco de cair numa apresentação didática banal. Ela realizou transparências, fantasmas dos documentos em acrílico, e os fez flutuar no espaço. Cabe a nós passar o tempo na tentativa de decifrar tais documentos, apesar das letras serem translúcidas, das palavras escaparem no ar. Buscamos desesperadamente um fundo escuro diante do qual poderíamos ler um relatório da CIA ou uma nora diplomática. Mas não há fundo, não há base ou referência, nem leitura fácil, visita guiada, pensamento mastigado, nem arte pronta para o consumo. Esta instalação se encontra a dez léguas acima de suas vizinhas.

Yael Bartana, Inferno, 2013

Yael Bartana, Inferno, 2013

Esperava muito do filme Inferno, da israelense Yael Bartana, que acompanho há quase dez anos e cuja trilogia polonesa havia apreciado bastante. Mas, desta vez, me decepcionei com a forma e com o fundo. Resumo o argumento: o terceiro Templo hebreu é reconstruído e será inaugurado… mas em São Paulo. Aqui (infelizmente), há menos improbabilidade do que se possa imaginar: certa Igreja Universal do Reino de Deus (um seita pentecostal evangélica bem sucedida) realmente reconstruiu o Templo de Salomão, e até importou, com curstos elevados, as pedras de Jerusalém! O filme de Bartana, uma “pré-encenação” (digamos, uma utopia/ucronia), mostra a inauguração desse templo e, em ocasião desta inauguração, sua destruição por um incêndio. Kitsch é a palavra que me vem ao espírito, diante da estética desse filme – os tão belos e tranquilos parroquianos, e o tão carismático padre andrógeno (na verdade, uma drag queen muito famosa no Brasil), a menorá e a arca chegando em helicópteros, a música tão comovente, a alegria hollywoodiana dos fiéis e, quando o incêndio começa, o pânico também hollywoodiano, e o rápido trabalho dos maquiadores para transformarem feridos e mortos. Enfim, essa estética irreverente poderia funcionar se estivesse, de maneira inteligente, a serviço de um discurso. Bartana poderia ter se interessado pelo mito religioso (como ela o fez tão bem, quando se tratou do mito sionista em muitos de seus filmes anteriores); poderia ter desenvolvido um trabalho sobre a crença e a credibilidade ou, mais politicamente, sobre o messianismo dos evangélicos e seu apoio incondicional a Israel. Ela poderia ter evocado as dinâmicas de poder inerentes a toda religião; poderia ter desmontado os mecanismos históricos e retrógrados que fundam as relações de poder e de dominação em seu país, assim que a instrumentalização da arqueologia e da reconstituição histórica, que se encontram a seu serviço. Ainda, poderia ter esclarecido as divergências internas que levaram à queda dos dois outros templos e de sua pertinência hoje. Em suma, poderia ter nos levado a tantas pistas de reflexão sem fazer um filme com um tema – ela já o fizera tão bem anteriormente. Mas não temos nada disso aqui, apenas cenas de multidão amavelmente filmadas, e a frase da artista recusando qualquer engajamento, além de sua banal constatação: “esta tentativa de criar uma realidade utópica carrega a destruição em si”. Decepcionante. A menorá é salva das chamas, mas a artista parece ter caído num pântano. Aguardemos seu próximo projeto

Fotos 1 & 2 do autor 

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