Da incerteza da representação

 

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Valter Ventura, Prospections n. 15, 2011, 87x80cm

Artigo original aqui.

São antes de mais fotografias de bruma, formas indistintas, apagadas, dissolvidas, onde temos dificuldade a distinguir uma ponte, uma cerca, uma árvore, um gasógeno talvez e, aqui, diríamos, para-lamas, forma primitiva e indefinível. Que fazer diante destas fotografias, que dizer, senão interrogar-se sobre a representação, sobre a distância entre a realidade e a sua representação?

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Valter Ventura, Precedent Map n.1, 2013, 87x100cm

Todo o trabalho de Valter Ventura torna ao torno deste dilema e a sua exposição na galeria Kubik, no Porto (até ao dia 6 de Dezembro), um “compêndio de nada”, explora este quiasmo, esta tensão, seja pelo artifício da bruma ou pelo da cartografia. O mapa é igualmente fonte de incerteza, a sua adequação com o território é sempre questionada (mas aqui não existe ironia houellebecquiana, estamos mais do lado da escala de Borges ou do simulacro de Baudrillard) e Ventura engana-nos com estes pseudo-mapas de paisagens indeterminadas onde cremos reconhecer cumes de montanhas e fundos de vales, mas que são apenas folhas de papel amachucado e estalado.

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Valter Ventura, The pretension of seeing, 2014, chaque 18x12cm

E claro, nesta procura da sempre inadequada representação, é ao médium que nos encontramos inevitavelmente confrontados: que acontece então à essência mesma da fotografia, da sua ontologia enquanto médium e enquanto material, além da imagem? Como outros fotógrafos que se posicionam nas suas margens (por exemplo, em registos diferentes, Alison Rossiter ou Silvio Wolf), Ventura dedica-se à superfície sensível virgem, antes da intervenção do operador, uma fotografia pré-histórica de certa forma. Desenvolvendo placas fotográficas virgens de diferentes marcas e diferentes tipos (preto e branco, cor, diapositivos, infravermelhos…), revela assim que ainda antes de terem sido utilizadas elas carregam já informação, ver imagens: como pode então a fotografia ter a pretensão de mostrar a realidade quando esta já está marcada, controlada, normalizada, deformada pelo suporte fotográfico ele mesmo, ainda antes de ser representada?

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Patricia Geraldes, Paisagem intuida, 2014

Ao lado, a obra apresentada no pequeno cubículo da galeria, se ela joga assim com a representação, fá-lo de maneira mais ligeira: não é uma longa cabeleira negra que Patrícia Geraldes nos mostra aqui jorrando da parede por trás da qual ela estaria prisioneira e se misturando em caracóis sombrios e sensuais no chão, isto não é um brasão erótico, é uma paisagem intuitiva, uma cascata de fios negros caindo no chão.

Fotos: cortesia da galeria.

 

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