Berardo : uma coleção sob tensão

Artigo original aqui

As exposições de coleções, sejam elas públicas ou privadas, são em geral incrivelmente previsíveis: bem feitas, com uma diretriz claramente enunciada mas ideologicamente ininteligível, um equilíbrio cuidado entre as obras, um percurso bem demarcado, inteligentemente neutro, e sem surpresas nem emoções; a bem dizer, frequentemente aborrecemo-nos um bocadinho mesmo se nos instruímos bastante. A coleção Berardo não seria uma exceção: obras muitas vezes notáveis, uma organização temática sólida, legendas explicativas densas e inteligentes, e o sentimento de revisitar as nossas aulas de história da arte contemporânea, com interesse, certo, mas estudiosamente, muito estudiosamente.

marc-chagall_detalhe-da-obra_foto_davidrato

Marc Chagall, Fundo de cena para a Flauta encantada de Mozart, 1965, técnica mista, 13.5×23.5m, fotografia David Rato

E depois algo se passou: o colecionador em pessoa, personalidade cativante, original e um pouco excêntrica (se é que o podemos julgar após duas horas passadas com ele) – e que, ademais, se preocupa com o domicílio futuro da sua coleção – decidiu, pela primeira vez, ter o prazer de não apenas colecionar mas também montar ele mesmo uma exposição das suas obras, substituindo os seus respeitáveis diretores, em quatro salas do museu (ficando o resto na mesma), de se abstrair de um qualquer tema, lição, didatismo, e de juntar peças saídas dos depósitos, mostradas mais raramente, e que ele aprecia particularmente (até ao dia 29 de Setembro). A exposição seria meramente simpática, e revelador da sua predileção por grandes formatos, se, ao montá-la, não mostrasse a sua audácia, a sua capacidade a justapor de maneira inesperada obras normalmente pouco próximas, e sobretudo assim demonstrar que, face aos pedantes e aos doutos, o museu deve antes de mais ser um lugar de prazer.

frank-stella_severambia-1995

Frank Stella, Severambia, 1995, técnica mista sobre fibra de vidro, 300x841x389cm

Porque é preciso – disso estou certo – um certo nível de audácia, de inconsistência e de coragem para espezinhar alegremente as práticas de Bourriad e Pacquement e dispor na mesma uma espécie de monstro assinado por Frank Stella, no qual a base no solo sobre mais de oito metros de extensão é rectangular e rígida, mas que, por cima, se eleva e se torce a quatro metros de altura, como uma onda viva que se deforma, se curva e nos engole nos seus motivos orgânicos, coloridos, ao mesmo tempo esmagadores e aéreos, na mesma sala, dizia, de um Chagall de 23,5 metros de altura, elemento de uma decoração pintada para uma representação da Flauta Encantada (da qual a música, claro, nos acompanha na nossa contemplação) no Lincoln Center em 1965, uma profusão de formas imprecisas, flutuantes, vagas, desfocadas, que trespassam pedras semi-precisas cosidas na tela. E o mais extraordinário é que a disposição funciona!, e que o sentimento de admiração um pouco terrorizada, de percepção profunda, quase animal, além da razão, gera uma emoção incompreensível, desafiando a análise, mas muitíssimo real.

20150519_132502

Pedro Cabrita Reis, The Grid, 2006, acrílico sobre madeira, 540x630cm; Pedro Cabrita Reis, Compound Group 13, 14 et 15, 2007, aço; Jörg Immendorf, Anbetung des Inhalts, 1985, óleo sobre tela, 285x330cm

E é a mesma coisa para quem ousaria confrontar a brutalidade metálica e fria de um Pedro Cabrita Reis, em tela e esculturas, com a desmesura radical e selvagem dos expressionistas alemãs contemporâneos, Penck, Baselitz e Immendorf, juntando-lhes, para fazer boa des-mesura, Schnabel e Basquiat? Nenhum conservador sentado encontraria a menor justificação intelectual a uma tal justaposição, digerível apenas pelas tripas de um colecionador propenso ao sentimento e à insensatez. Promover esta tensão entre obras pede algo mais que inteligência pura, pede paixão, uma coisa tão rara.

20150519_1254032

George Segal, Flesh Nude behind Brown Door, 1978, pgesso pintado, madeira e metal, 244x152x102cm

Mais além, uma espécie de casal de chumbo de Gormley e um homem desdobrado de Quinn dialogam com os neoclássicos italianos, Clemente, Paladino e Cucchi. À entrada, uma mulher nua de Segal convida-nos a entrar, em direção a um Monory inquietante e um muito belo Lichtenstein. Um pequeno percurso sob o signo do prazer.

20150519_135228

La Nuit des Assassins, um filme de Jece Valadão, 1976, cartaz de Angel Facio, Os Cómicos, Lisboa

O museu mostra também a coleção de cartazes de todo o género do artista português Ernesto de Sousa. Os cartazes estão na moda em Lisboa, a Culturgest também os expõe. Encontramos aqui a Nouvelle Vague e o Maio de 68, mas também a Revolução dos Cravos, os Panteras Negras e toda a uma porção de arte, teatro e cinema portugueses.

Fotografia 1 & 2 cortesia do Museu. Fotografias 3, 4 e 5 do autor.

Print Friendly, PDF & Email
PartilharEmail this to someonePrint this pageShare on Google+0Share on LinkedIn0Share on Facebook0Share on Tumblr0Tweet about this on TwitterPin on Pinterest0