A dobra, ou o livro sensível

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Virgem com menino, Anónimo, Escola Portuguesa, 1540 – 1550, col. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Texto original aqui.

Talvez a contribuição mais importante de Maurice Denis para a história da arte não seja a sua obra pictural, mas sim esta frase que anuncia toda a arte moderna: “Recordar-se que um quadro, antes de ser um cavalo de batalha, uma mulher nua ou uma qualquer historieta, é essencialmente uma superfície plana recoberta de cores agrupadas numa certa ordem.” (“Definição do Neo-tradicionalismo”, revista Art et Critique, 30 de Agosto de 1890). Lembrar-se que um livro, antes de ser um romance, uma antologia poética ou um tratado de matemática, é essencialmente um conjunto de folhas impressas, dobradas e encadernadas, parece-me ser uma das proposições (não a única, mas a minha favorita) da apaixonante exposição Pliure na antena francesa da Fundação Gulbenkian (primeira parte “Prologue (la part du feu)” até ao dia 12 de Abril; a segunda parte, “Epílogo”, estará na ENSBA do dia 10 de Abril até 7 de Junho); ela é o prolongamento desta, que esteve em 2012 em Lisboa. O livro assim entendido, como um objecto, pode então tornar-se um elemento artístico, um vector de experiências estéticas, um suporte criativo, um objecto não apenas racional mas também sensível.

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Ready-made infeliz, a partir de Marcel Duchamp

Entrando no edifício da Fundação, o visitante atento observará, no acesso, um livro suspenso por um fio, vulnerável ao vento, à chuva, à neve, objeto irrisório rodopiando sobre ele mesmo segundo a vontade da natureza, e desfazendo-se pouco a pouco; e, se esse mesmo visitante for dotado de uma boa visão, distinguirá nessas páginas gráficos, geométricas, fórmulas, tudo o que possa constituir um tratado de matemática do qual não saberá mais nada, mesmo que seja tão curioso quanto o autor deste bloque (que não escapará do seu “glorioso passado” neste campo). De que se agita? De um ready-made infeliz: a prenda de casamento de Marcel Duchamp à sua irmã Suzanne em 1919, que ela deveria executar segundo as instruções do artista: compra do livro de geometria, suspensão na varanda do seu apartamento, e “o vento deverá consultar o livro, escolher ele mesmo os problemas, folhear as páginas e rasgá-las”. A destruição progressiva do livro-objeto era então o caminho a seguir para resolver – através do vento – os problemas nele colocados. A materialidade vence a inteligência, em soma.

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Maria Helena Vieira da Silva, La bibliothèque en feu, 1974, óleo sobre tela, Col. CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

De maneira que um livro pode ser desfeito pelo vento. Também pode ser queimado pelo fogo, que ele sobreviva no espírito dos seus leitores (Fahrenheit 451), que seja de maneira ritual (Bruce Nauman reinterpretando Ed Ruscha), que nada sobeje a não ser cinzas (uma instalação de Rui Chafes), ou que a biblioteca inteira arda por causa dos vândalos, dos grandes inquisidores, ou do fogo destruidor e iconoclasta que certos livros possuem neles mesmos (Marie Helena Vieira da Silva). Mais vão é o livro recortado em forma de casa de Olafur Eliasson.

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Albrecht Dürer, São João devorando o livro da Vida, c. 1498,Gravura sobre madeira, Ancienne collection éditoriale : Dürer, L’Apocalypse (éd. latine), Coll. ENSBA, © Beaux-Arts Paris, Dist.

O livro ingere-se igualmente, ele encarna-se, torna-se carne da carne, e aquele que o coma (aqui São João) dele fica assim possuído: «Toma o livro e come-o; ele te causará amargor no ventre, mas na tua boca será doce como mel (…) Tomei o livro da mão do anjo, e traguei-o, e na minha boca era doce como o mel, mas depois que o traguei, ele me causou uma dor no ventre. » (Apocalipse X, 9-10). Como com Ezequiel (II, 9 – III, 3), comer o livro permite profetizar : a ingestão do livro que comporta a palavra divina faz dele uma parte integrante e essencial do corpo do profeta. É o que Dürer mostra nesta xilogravura de 1497-98.

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Raffaella della Olga, Un coup de dés jamais n’abolira le hasard – constellation, 2009, Obra executada sobre a edição de « Un coup de dés n’abolira le hasard » de Stéphane Mallarmé, ed. Gallimard, 1914. Cortesia da artista.

O livro pode também desaparecer, apagar-se, seja através do efeito de uma velocidade de apresentação demasiado rápida para o olho (John Latham faz assim desfilar cada vez mais rapidamente as 30000 páginas da Encyclopedia Britannica, presentes diante dos nossos olhos, mostradas, mas ilegíveis, inacessíveis) ou através da ausência de luz: ao fundo da exposição somos conduzidos por um guarda a uma sala obscura, posicionamo-nos diante de um púlpito onde repousa o que parece ser um grande livro, não vemos nada até ao momento em que a lanterna do guarda ativa a fluorescência do texto inscrito no livro, que ele folheia lentamente, página a página. Descobrimos então a paginação do livro, mais poética que racional, plena de espaços virgens e palavras flutuantes. A artista italiana Raffaella della Olga (que foi penalista…), da qual todo o fascinante trabalho parece girar à volta da tensão entre linguagem e sensível, transforma aqui o lance de dados de Mallarmé de um livro de papel e tinta numa imagem quase imaterial, indo de um texto a ler a uma constelação contemplável, de um sentido racional a uma percepção sensível.

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Francesca Woodman, Some Disordered Interior Geometries, Synapse Press, 1981, Cortesia Betty and George Woodman

Por fim, o livro pode ser transformado, adulterado, reapropriado. Em 1977 Francesca Woodman, jovem estudante americana de 19 anos passando a sua “junior year abroad” em Roma, é ainda uma ilustre desconhecida (apenas a visionária Roberta Valtorta tinha já reparado no seu trabalho) quando ela compra, na livraria Maldoror, um pequeno manual de 24 páginas de exercícios graduados de geometria com uma capa cor-de-rosa, datando do início do século. Woodman vai transformar este livro colando-lhe fotografias da sua autoria, escrevendo nas suas páginas e fazendo marcas com tinta corretora. Será o único livro dela publicado ainda em vida, alguns dias antes do seu suicídio em Janeiro de 1981 (o livro fora tirado a 500 exemplares, e a maior parte deles, rendidos à família, foram distribuídos às pessoas presentes durante o enterro da artista). O livro possui um aspecto frágil, as suas páginas estão deterioradas, desfeitas, dobradas onde não devem; elas estão cheias de figuras, paralelogramas, trapézios, cones, pirâmides, esferas, das quais se calcula a superfície ou o volume, um epítome da lógica euclidiana, fria, racional. E foram coladas no livro dezasseis pequenas fotografias íntimas, fantasmáticas, misteriosas, ligeiras, sensíveis e sensuais, na sua maior parte autorretratos. Poderíamos pensar que seria um caderno, um rascunho, uma utilização deste livro à falta de outro caderno à mão de semear; perguntamo-nos se o que vemos aqui não será o original mesmo (não o é, é a edição Synapse Press de 1981, hoje praticamente impossível de encontrar e caríssima). Escolhi esta imagem antes de mais (em vez da imagem fornecida pela Gulbenkian, aqui em cima) porque é a que contém o texto mais elaborado, algumas palavras hesitantes e poéticas entre os traços de tinta corretora: “These things arrived from my grandmother’s they make me think about where I fit in this odd geometry of time. This mirror is a sort of rectangle although they say mirrors are just water specified”. No meio de vestidos antigos saídos de uma mala, envergando uma camisa e nua sob a cintura, de pé sobre um espelho colocado no chão na diagonal, Francesca Woodman, cujo trabalho é rigorosamente composto a partir dos cantos, das pareces, da geometria do compartimento, mostra-nos aqui outras geometrias: o canto do espelho, os ângulos rectos da cadeira, e o desdobramento do reflexo no espelho, como água no solo (“water specified”). E um gato passa, altivo e indiferente. Neste livro-metamorfose, à intemporalidade fria das figuras geométricas responde a materialidade efémera do seu corpo, aos ângulos rectos respondem as suas curvas: como casar a flexibilidade do corpo com o rigor das formas geométricas (podemos pensar em Bacon)? Podem ler este estudo muito detalhado de some disordered interior Geometries, e também este artigo e mais este.

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Francesca Woodman, Some Disordered Interior Geometries, Synapse Press, 1981, Courtoisie Betty and George Woodman

Também apreciei esta magnífica Virgem portuguesa presente no início do texto, de traços um pouco rudes, ensinando o Menino Jesus a escrever, uma cena rara, creio. Proponho a leitura desta crítica da exposição (em português). O catálogo é interessante, tendo páginas dobradas (mas onde infelizmente demasiadas fotografias em dupla-página desaparecem sob a dobra) com, sobretudo, um belíssimo texto de Gonçalo M. Tavares, que conclui assim: “Um livro é uma casa que se vê do exterior, bela ou intrigante, e que por esta razão apenas mereceria já que caminhássemos até ela. Para além disso, ela possui ainda uma porta – ponto do espaço por onde podes penetrar no seu interior e instalar-te durante algum tempo. Tal é o livro – um objecto munido de uma porta, de um interior. Se tu ficas cá fora, recebes uma recompensa visual; e se entras, outras recompensas te são prometidas, visuais igualmente, mas de outra ordem.” E, no final, cita Umberto Eco: “Existem colecionadores que, possuindo uma obra do século XIX com páginas por abrir, não as cortariam por nada deste mundo.”

Fotografias: cortesia da Fundação Gulbenkian, à exceção da penúltima (F. Woodman).

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