A coleção António Cachola em Elvas

 

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AnaMary Bilbao, Past present M3, 2014

Artigo original aqui.

Uma cidade-fronteira rodeada de fortificações, o antigo hospício em mármore branco transformado em museu municipal, uma importante coleção de arte contemporânea portuguesa aí em depósito; apenas uma pequena parte da coleção de António Cachola está exposta aqui, e temos de consultar o extenso catálogo (excelente referência visual, mas infelizmente com um texto bem sucinto) para ver a sua riqueza (com, em particular, esta obra bem conhecida) e para começar a descobrir os artistas da região. Mais do que da exposição temporária (Rui Calçada Bastos), vou-vos falar rapidamente de alguns artistas descobertos ou encontrados lá na ocasião de uma breve visita.

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Susanne Themlitz, O estado do sono, 2006 2009

Da rua apercebemos um estranho homem sentado sobre o rebordo interior de uma janela, a cabeça ornamentada com um funil, uma estranha recepção por Susanne Themlitz. Entramos face à soberba escada de honra, toda apinhada de caixas de Vhils que ocultou igualmente o brasão com uma das esculturas de espuma cortada e colada das quais é costumeiro, obrigando-nos a encontrar o ponto de vista adequado, a piscar os olhos até distinguir os traços do rosto. E não é indiferente, provavelmente, que este estranho rosto esconda as insígnias do poder.

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Vhils (Alexandre Farto), Diorama Series 2, 2012

A sala do consistório, toda adornada de azulejos exegéticos sobre a vida de Santa Elisabete e São João-Baptista, alberga abarracamentos de papelão cortado por Rodrigo Oliveira, contraste radical entre esplendor passado e precariedade presente, destruição e ruína. Também assinalei as fotografias de dançarinos de Augusto Alves da Silva, as esculturas mobiliárias de José Pedro Croft, a sala de quadros coloridos de Pedro Calapez e, claro, uma grande instalação de Pedro Cabrita Reis.

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Rodrigo Oliveira, Embargado clandestinos, 2005

Particularmente notável é a instalação de Fernanda Fragateiro: sobre paletes pousadas no chão, a noventa graus, a dupla fotografia de uma mulher (dos anos 30, digo eu) no seu quarto burguês, em espelho. Mas um dos painéis está quebrado, a violência irrompe na cena, da qual o subtítulo é Doce Calma ou Violência Doméstica. Pensamos na Violação de Degas.

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Fernanda Fragateiro, Publico Privado, 1995 1997

Finalmente, a benjamim da exposição é uma aquisição recente da coleção, e três das suas peças estão na sala do princípio: AnaMary Bilbao, recentemente encontrada, mostra aqui também obras brancas onde os estratos arqueológicos da gipsita servem como testemunho do seu trabalho de memória (em cima). Como a exposição muda regularmente, será preciso ir de novo a Elvas.

Fotografias do autor excepto Bilbao (obra da mesma série que as mostradas no Museu) e Vhils.

 

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