O museu dos negros ídolos

Texto original aqui.

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Miguel Branco, LUZ, galeria Pedro Cera, 2015, vista da exposição

Pensaríamos estar num museu. Mas é uma galeria, é apenas uma galeria, mas onde a disposição das estátuas, as bases, a iluminação nos transporta para o Louvre ou para o British Museum. Mas para que sala? Para que época? Reconhecemos aqui e ali antiguidades gregas ou romanas, estátuas egípcias, divindades pré-colombianas.

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Miguel Branco, ST, 2012 2013, grés, 48 x 35 x 38 cm

Este escriba sentado que provém diretamente do Egipto tem as mãos cortadas: é este um sinal de impotência a escrever ou de censura? Transposto para o mundo atual, no meio dos nossos contemporâneos, ele e os seus confrades irradiam uma estranheza inquietante e negra. De órbitas vazias ou de olhos fechados, crânio desproporcionado, ver hidrocéfalo, cara simiesca, o sorriso/rictus ambíguo fazem deles tanto aliens de ficção científica ou Ötzi que antiguidades.

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Miguel Branco, ST,, 2015, grés, 59,5 x 19,8 x 28 cm

Reconhecemos um senador romano na sua toga, um ídolo inca, a polimasta Artemis de Éfeso, uma morte medieval jocosa resvalando para trás. Todas são feitas de grés negro, por vezes liso e acariciável, por vezes rugoso e coberto de glitter dourado e arenoso. Possuem uma aura? Projetam ondas, que poderíamos pensar maléficas se não nos apaziguássemos, não nos reconciliássemos com a sua nobreza aquietada após um momento de familiaridade com elas? A sua negritude arranca-as do passado, confere-lhes uma presença forte e imanente, não cessando porém de evocar a morte.

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Miguel Branco, ST, 2015, grés, 56,7 x 29 x 20 cm

Miguel Branco (na galeria Pedro Cera até ao dia 23 de Maio) conta que, quando ele tinha quatro anos, o seu pai trouxera um dia para casa diapositivos sobre a arte egípcia e mesopotâmica e que esse momento fora para ele uma revelação. Disso carrega as marcas ainda hoje.

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Rosangela Renno, ST, série Insolidos, 2014, seis impressões digitais sobre organdi de seda, 190x140x8cm

Na esquina da rua, fiquei desiludido com a exposição de Rosângela Rennó na galeria Cristina Guerra (até ao dia 16 de Maio): enquanto que os seus retratos quasi invisíveis de pessoas desaparecidas (na MEP há três anos) me tinham marcado fortemente, não soube o que pensar da banalidade destas suas sobreposições de projeções de diapositivos. As imagens sobrepostas sobre superfícies de organdi flutuantes seriam mais interessantes se a sua pureza transparente não fosse por vezes ‘poluída’ pela inclusão de objetos reais, como uma cruzeta (aqui em cima) ou uma mola, que, ao ancorá-los em readymades híbridos, quebram a força estética. Finalmente, a sua melhor peça aqui são os seus livros sobre o roubo e a restituição de arquivos fotográficos: fotografias devolvidas ou recuperadas, mostrando apenas o verso, como um testemunho da impossibilidade de ver além da imagem.

Fotografias de M. Branco cortesia da galeria; fotografia R. Renno pelo autor.

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