Arquivo mensal: Março 2016

Wolfgang Tillmans, fotografias do entre-dois

Vista da exposição

Vista da exposição

Artigo original aqui.

Wolfgang Tillmans (na Fundação Serralves até 25 de abril) é um homem dos limites, das fronteiras, dos espaços abertos e das ambiguidades, um homem do equilíbrio, às vezes precário, do entre-dois. Muitas de suas fotografias apresentadas aqui são indecisas, entre o dia e a noite, entre o céu e o mar – ou seria o chão? Tudo, ou quase tudo, é aqui atmosférico, intangível, indefinível, oscilando entre o líquido e o gasoso. Poucas linhas retas, exceto o horizonte. Tudo se contorse, turo é fluido. Seria uma nuvem ou uma onda? Seria o rastro de um avião a jato ou nnao se passa de ilusões, fabricações na câmara escura (porque o artista jura por todos os deuses que não fotografa)?

Wolfgang Tillmans, Colour Space, 2014

Wolfgang Tillmans, Colour Space, 2014

Tudo igualmente imerso na cor pura, fusional, com tons para os quais se deveria inventar novas apelações. E nos satisfazemos ao ver, no fundo da exposição, o diagrama de cores exposto como uma obra em si; essa ferramenta do processo assim louvada como a paleta do pintor.

Wolfgang Tillmans, Italian Coastal guard flying rescue mission over Lampedusa, 2008

Wolfgang Tillmans, Italian Coastal guard flying rescue mission over Lampedusa, 2008

Às vezes, a realidade acena, o referente surge na imagem, reconhecemos um signo, quase sempre misterioso, pouco explicícito na ficha técnica. Assim, em pequeno formato (somente quando o olhamos de outra maneira), essa luz que atravessa as nuvens como uma manifestação divina dos catecismos ilustrados de minha infância, revela-se, de fato, um feixe luminoso. Uma “perseguição”, dizem, creio, no teatro – palavra bastante apropriada neste caso –, um avião da guarda costeira italiana à procura de barcos de migrantes perto de Lampedusa. Pois aqui a política e os refugiados são assunto, com um cemitério de barcos nesta mesma ilha, além de alguns signos cá e lá. Porém, na maioria das vezes, o referente nos escapa: qual é a pensínsula vista do avião, sem outra indicação? E “o mais belo lugar em que estive” ficará para sempre perdido na névoa da altitude: algumas árvores, varandas, rochedos – onde estamos?

Wolfgang Tillmans, Nova (detalhe), 2015

Wolfgang Tillmans, Nova (detalhe), 2015

E, então, onde estamos, diante dessas ondas imensas, desse quadro gigante que mostra somente a água agitada pelo vento (e nada mais), apenas uma faixa cinza no alto – sem dúvida o céu, ou a terra ao longe? Trata-se apenas de um momento captado, gotas suspensas, a espuma, a rebentação. Mas cada centímetro quadrado dessa imensa fotografia é um quadro em si, um mergulho nessa matéria ondulante. Sempre as formas moles, nuvens ou ondas, impalpáveis, informes. E, às vezes, até a impossibilidade de se distinguir a parte superior da inferior.

Wolfgang Tillmans End of broadcast VII, 2014

Wolfgang Tillmans End of broadcast VII, 2014

Mergulho na matéria, como essa grande fotografia incompreensível, pixels analógicos levados ao extremo e reunidos num campo incerto – profunda investigação da imagem, até o momento em que lemos que Tillmans fotografou a tela de uma velha televisão, num quarto de hotel em São Petersburgo. Do digital ao analógico, da modesta tela ao quadro mural, do vestígio soviético à pós-modernidade triunfante.

Wolfgang Tillmans, Moonrise (Sundance Camp), 2011

Wolfgang Tillmans, Moonrise (Sundance Camp), 2011

Fronteiras do gosto também, que ele não hesita em ultrapassar para mergulhar num kitsch duvidoso – eu não apreciei muito sua exposição de fotografias aleatórias em Arles. Enquanto suas imagens não figurativas são fascinantes, as mais realistas decepcionam com frequência. A beleza de seu trabalho é frágil e a emergência de um simples signo pode perturbar. Estou tomado pela mesma dúvida experimentada em Arles: diante da banalidade das vistas a partir das janelas de um avião, diante dos tons berrantes de um certo café da manhã bem British, que explodem no meio dessa doce e surda cena acinzentada, diante da montagem demasiado evidente de uma fotografia de lua no teto, ou diante dessa lua marina tão ordinária (ainda que se possa pensar em Munch…). Como se Tillmans quisesse deliberadamente romper os códigos, um pouco como as pinturas ofensivas de Cézanne ou do período rigoroso de Magritte, e destacar a fragilidade de sua estética.

Wolfgang Tillmans, Lacanau Sunset 1987 (fotocópia a laser)

Wolfgang Tillmans, Lacanau Sunset 1987 (fotocópia a laser)

No conjunto, é um jogo com nossa percepção, que permanence no registro de uma prática fotográfica básica – nenhuma experimentação com a câmera ou com o processo fotográfico. Exceção para suas fotocópias de juventude, que foram uma tentativa de explorar a imagem por meio da reprodução grosseira – do pôr-do-sol em Lacanau, restam somente algumas linhas cinza numa folha de papel, talvez sua essência. E essas fotografias de entre-dois são a própria essência da imagem.

Fotografias do autor.

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