Arquivo mensal: Outubro 2015

Os Encontros da Imagem em Braga: fotografar o futuro e outras ilusões

Roger Ballen, Asylum of the Birds

Roger Ballen, Asylum of the Birds

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O dinâmico festival Encontros da Imagem, realizado em Braga, no norte de Portugal, celebra seu 25o aniversário até 1o de novembro. A maioria das exposições são realizadas em locais históricos, museus, teatros, mosteiro e até mesmo numa impressionante construção de arquitetura árabe, estilo “moucharabiehs”. Trata-se de um pequeno festival, muito mais modesto que a grande “máquina” de Arles (França), às vezes com alguma confusão e pouco público. Mas é sobretudo um evento em que – pelo menos quando estive – sentimos bastante o espírito comunitário entre fotógrafos, curadores e críticos vindos de toda a Europa. Portfólios são comentados, alguns prêmios são distribuídos – o principal deles contemplou um trabalho bem “photoshop-anedódico”, que em algo me decepcionou – e, sobretudo, as pessoas se encontram e trocam de maneira informal. No programa, constam poucos dos grandes nomes da fotografia, fora Roger Ballen, cujo trabalho Asylum of the Birds (apresentado em Chalon, na França, no Museu Niepce, no ano passado) é exposto em um delicioso museu em forma de labirinto, ou ainda o perturbador Ren Hang, além da trágica Cristina de Middel.

Phil Toledano, Maybe

Phil Toledano, Maybe

O tema deste ano é “o poder e a ilusão”. Phil Toledano é autor da exposição mais ilusionista, pelo talento particular (quando jovem, foi publicitário, e suas mensagens bastante complexas são apresentadas de maneira simples, forte e impactante). Além disso, inventou seu futuro. Após a morte de sua mãe, muito deprimido, confrontou-se ao medo de envelhecer e morrer, perguntou-se como iria evoluir, consultando geriatras, videntes e especiaistas em próteses para tentar inventar seu futuro e fotografá-lo. Trata-se de um assunto que muito me preocupa também, e fiquei cativado por essa exposição cercada do ouro do Grande Teatro barroco da cidade.

Eduardo Brito e Rui Hermenegildo, 5 p.m., Hotel de La Gloria

Eduardo Brito e Rui Hermenegildo, 5 p.m., Hotel de La Gloria

Muitos outros trabalhos de jovens fotógrafos lidam com a ilusão: ilusão da visão e construções quiméricas, e aqui cito Catherine BaletBirgit KrauseClaire Cocano, as paisagens artificiais de Michel Le Belhomme e de Yurian Quintanas, assim que as falsas cenas de guerra de Wawrzyniec Kolbusz. Apreciei particularmente o trabalho deslocado de Eduardo Brito e Rui Hermenegildo que levaram a Osuna a cena do Hotel La Gloria, do longa-metragem The Passenger, que Antonioni havia filmado em uma outra cidade espanhola, Vera. Esta reapropriação fotográfica da passagem do outro lado do espelho é notável.

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Carlos Spottorno, The PIGS

Quanto ao poder, Carlos Spottorno trata de maneira bastante jornalística grandes cartazes com baixa definição de imagem nos muros, além da edição de uma revista sobre os PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) e a crise que os afeta. Isso não é muito simples e esta foto de um muro de Lisboa é a ilustração trágica da decepção, após as esperanças depositadas na Europa.

 

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David Fathi, Anecdotal

Mais irônico e sutil é o trabalho de David Fathi sobre os diversos acidentes atômicos dos últimos 70 anos: bombas perdidas ou lançadas por engano numa fazenda (quantas galinha vaporizadas a indenizar pelo seguro?), uma série de anedotas sobre o biquíni (“the first anatomic bomb”), e os ministros franceses enviados para Reggane (Argélia).

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Bénédicte Vanderreydt, I am 14 (Ru’a)

Um pouco à margem dessas lógicas de poder e de ilusão, outros artistas apresentam trabalhos mais íntimos, como os quartos vazios e as imagens ocultadas de Christiane Peschek, e, sobretudo, o vídeo de Bénédicte Vanderreydt sobre a adolescência de três raparigas de 14 anos, uma belga mimada, uma congolesa que tenta escapar da pobreza e uma palestina revoltada contra a ocupação. Todas falam de seus sonhos e de seus futuros. Um festival a visitar novamente no próximo ano, sem dúvida.

Um pouco de Portugal em Paris (2) : conceito, humor, história, mas nunca o corpo, o corpo jamais

¡Von Calhau !, Fincipio et Mesmo Meme, 2015, 2 vezes 60x60cm

¡Von Calhau !, Fincipio et Mesmo Meme, 2015, 2 vezes 60x60cm

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A Fundação Gulbenkian apresenta, em Paris, dez jovens artistas portugueses – uma nova ocasião, após a exposição do espaço Ricard, para a descoberta desse cenário. Se abstraímos o discurso curatorial – a meu ver, muito povoado de jargões –, interessamo-nos por duas ou três presenças e por uma ausência. Primeiramente, a presença de um eixo abstrato, conceitual, desnudado: o extremo minimalismo das esculturas de Ana Santos ou a estruturação rigorosa das instalações de Carlos Bunga me deixam um tanto frio, mas desfruto bastante dos quadros abstratos de Sónia Almeida onde às vezes interferem pequenos fragmentos de realidade fotográfica.

João Maria Gusmão e Pedro Paiva, O terceiro burro, 2015, 105x140m

João Maria Gusmão e Pedro Paiva, O terceiro burro, 2015, 105x140m

Um outro eixo é o humor, o deslocamento, a transformação do real. A dupla ¡Von Calhau ! apresenta grafismos poéticos e codificados, derivas de linguagem e jogos visuais de palavras, como pequenas jóias de letras agenciadas em todos os sentidos. João Maria Gusmão e Pedro Palva, sem dúvida os mais conhecidos do grupo, mostram a imagem surpreendente de três asnos “em abismo”, tão mágica e composta quanto os grafismos vizinhos.

André Cepeda, Anti-Monumento, Porto, 2015, 44x56cm

André Cepeda, Anti-Monumento, Porto, 2015, 44x56cm

Entretanto, aos meus olhos, são mais interessantes os artistas que fazem um trabalho político, ancorado no mundo, testemunhas do real. André Cepeda apresenta imagens oníricas, fotografias de detalhes de um improvável Monumento ao empresário, vandalizado, fragmentado, decomposto, em perda de sentido, como um derrisório testemunho da decadência. As suspensões de Carla Filipe contam suas errâncias em Antuérpia, uma anti-Lisboa. Mauro Cerqueira desvela vestígios de um espaço associative no Porto, como uma « escultura social », testemunha da sobrevivência diante da gentrificação.

Carla Filipe, Quatro Meses do Quotidiano de Antuérpia, Bélgica, instalação, 2014, détail

Carla Filipe, Quatro Meses do Quotidiano de Antuérpia, Bélgica, instalação, 2014, détail

O objeto mais histórico é certamente aquele de Daniel Barroca (já visto em Carpe Diem) que retoma fotografias de guerras coloniais (provenientes de seu pai) em que introduz igualmente ambiguidade e silêncio. Ao lado, apresenta uma dupla fotografia bem pequenina, que um motor faz revirar-se diante de nossos olhos: de um lado, um gracioso menino branco e loiro. Do outro uma vítima negra, ferida ou morta, deitada no chão e a rotação é muito rápida para que o olhar possa realmente assimilá-las individualmente.

Daniel Barroca, Mapa de cumplicidades, 2011, 120x140cm

Daniel Barroca, Mapa de cumplicidades, 2011, 120x140cm

A ausência é aquela que se percebe em quase toda arte contemporânea portuguesa: uma grande reticência em abordar as problemáticas de corpo, gênero e sexualidade. Estou longe de tudo conhecer,  mas pouquíssimos nomes de jovens artistas portuguses me vêm à mente quando penso em explorar essas problemáticas (Lizi Menezes, sem dúvida, mas ela é brasileira e vive em portugal). O único que aqui se aproxima é Arlindo Silva e suas pinturas realistas de seua amigos ou de sua mãe. A questão permanece aberta, creio, sobre essa lacuna estética na psiqué portuguesa.

Todas as fotos pertencem ao autor.

Inundação metafórica

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Um dia, a biblioteca de André Guedes foi inundada; um dia, seus livros sobre a Bauhaus foram então danificados; um dia, a lembrança dos desastres que conduziram à distuição da Bauhaus foi reativado; um dia, André Guedes, ao perceber-se da pertinência contemporânea desses desastres passados, decidiu fazer destes uma obra.

André Guedes, Die Wiederherstellung des Geistes, 2015, vista da exposição, fotografia de Bruno Lopes

André Guedes, Die Wiederherstellung des Geistes, 2015, vista da exposição, fotografia de Bruno Lopes

Compôs então uma espécie de ópera visual, na qual coabitam o texto de uma peça realizada a partir de trechos de escritos de época, mescla crítica de ficção e de real, cujos personagens fantasiados são Klee, Moholy-Nagy ou Gropius, ao lado do coro de estudantes, imagens do livro danificado, em que reconhecem-se fotografias de professores, edifícios ou obras, com recortes de jornais da época em letras góticas – um tanto ameaçadoras – e xilografias. Na Terceira parte, constam papéis coloridos desbotados (Vera Cortês, até 7 de novembro).

André Guedes, Die Wiederherstellung des Geistes, 2015, vista da exposição, fotografia de Bruno Lopes

André Guedes, Die Wiederherstellung des Geistes, 2015, vista da exposição, fotografia de Bruno Lopes

O assunto aqui são as utopias, a memória de um momento e lugar de inteligência e liberdade que se terminou com um desastre. Trata-se também de uma resposta ao que poderia voltar a acontecer. Contudo, tanto o título alemão « Die Wiederherstellung des Geistes » (A Recuperação do Espírito) que o texto de apresentação de Juan de Nieves, fazem alusão de modo pouco sutil a esses “maus” alemães autoritários, déspotas, repressivos, histericamente anti-terroristas etc. E podemos sorrir ao perceber como, em algumas semanas, a imagem que atribuímos aos alemães mudou, passando de vilãos anti-gregos a gentis anfitriões dos refugiados (e, em seguida, bandidos da Volkswagen) e como, repentinamente, esse argumento político nos parece ultrapassado…

André Guedes, Die Wiederherstellung des Geistes, 2015, vista da exposição, fotografia de Bruno Lopes

André Guedes, Die Wiederherstellung des Geistes, 2015, vista da exposição, fotografia de Bruno Lopes

Na sala em que aconteceu a performance a que não assisti, estão um divã e uma coluna, cópia daquelas da entrada do Teatro de Iéna (Paris), atribuídas a Gropius e a Adolf Meyer. O capitel de vidro e de aço é, para um lisboeta, muito evocador, pois o encontramos nos edifícios do Diário de Notícias e no Parque Mayer. A modernidade triunfante além das fronteiras, da democracia de Weimar ao Estado Novo.