Arquivo mensal: Setembro 2015

Walk & Talk : uma exposição enganadora

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Nuno Nunes-Ferreira, Festa, 2013


Artigo original aqui.

As ilhas atraem-nos em permanência. Quanto mais longínquas, estranhas, suspensas ao fim do mundo, nos confins do desconhecido, um pouco antes de uma grande travessia, mais a sua magia funciona. É nas ilhas (nos portos também, por vezes) que nós reencontramos o desconhecido, o inesperado, o que talvez nos fará desviar da nossa rota, o que talvez nos guiará a outros lugares. E assim, no meio do Atlântico, na extremidade ocidental da Europa, sobre uma terra que vulcões e terramotos animam por vezes, numa paisagem de campos verdes e pedras negras, entre céus sempre húmidas e águas sempre verdes, tem lugar, a cada Verão de há cinco anos para cá, um festival artístico que combina o interior e o exterior, os artistas vindos de fora e os criadores locais, que conjuga até no nome, “Walk and Talk”, “Anda & Fala”, a descoberta e o câmbio, misturando o português e o inglês, a deambulação e a palavra até à alvorada. Falarei obviamente sobretudo de artes plásticas e de street art, mas também há ateliers, dança, música, design e todo o tipo de outras fontes de criatividade. A ilha de São Miguel torna-se ela então o centro do mundo, a uma equidistância imaginária de quatro continentes (se distinguirmos as duas Américas…)? Torna-se em todo o caso, durante quinze dias, um laboratório interessante, um lugar onde pessoas um pouco insensatas se reencontram para experimentar e tentar criar uma nova relação com a arte e a cultura, alta e baixa, um evento que os seus dois jovens criadores transformam incessantemente. Talvez que, nas suas disciplinas respectivas, Avignon ou Arles seriam assim no seu início, talvez daqui a vinte anos olharemos com surpresa e respeito aquele que dirá “estive no Walk and Talk em 2011, em 2015…”

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Maria Trabulo, A caminhada é fácil com os pés no chão, 2014, foto do artista

E assim, para começar pelo aspecto mais clássico (mas também talvez o mais revelador), primeiro uma exposição com um título estranho, “Gente Feliz com Lágrimas”, cujo título vem deste livro, mas da qual o propósito se quer bem mais vasto: os dois comissários, ambos artistas, quiseram tratar de questões de movimento e de território, de pertença a um lugar e de dependência. Mas o que se torna sobretudo evidente na vintena de peças aí apresentadas é que nada é verdadeiramente o que parece ser: neste lugar que pensaríamos periférico e exótico, e que se revela como um laboratório criativo essencial, as aparências não poderiam ser mais enganadoras – e as pessoas felizes choram…

Na entrada, folhas de jornal reproduzem fotografias de praias paradisíacas nas quais estão inscritas dados de webcams, praias privadas de hotéis de luxo, compreendemos ao decifrá-las. Mas cada uma destas praias destinadas a acolher os corpos avermelhados pelo sol de Europeus do Norte também foi o lugar de chegada de corpos do Sul, corpos escurecidos, queimados, esfomeados, sedentos, por vezes mortos ou então apenas sobrevivendo, corpos de imigrantes clandestinos que chegam ali sobre pateras precários, num final de um périplo feliz ou trágico. E a recolha que a artista Maria Trabulo compôs assim, este pequeno jornal que o espectador poderá levar para sua casa para aí escolher tranquilamente a sua praia favorita, torna-se assim uma falsa aparência, um cenário para esta tragédia. Ali ao lado, sacos em juta pousados no chão começam subitamente a mexer-se: alguém lá dentro é prisioneiro, contorciona-se, tenta escapar ou simplesmente aceder ao ar, à luz. Este peça de ilusão de Nuno Nunes-Ferreira chama-se Armadilha.

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Maciel Santos, Sweet Orange Mega Beast, 2013 vista da exposição, foto Rui Soares

Subindo a escada, sentindo uma presença atrás de nós, descobrimos uma escultura mural do mesmo Nuno Nunes-Ferreira, feita de megafones recuperados na sede local do Partido Comunista e agora irrisórios, vazios de energia e sentido, e que no entanto parecem ameaçar-nos e vigiar-nos (acima). Acedendo à grande sala no primeiro andar, o espectador é confrontado em primeiro lugar com a reprodução em madeira de um grande contentor azul, sob o qual está presa uma laranja: podemos fazer uma leitura política, económica, aí ver oposições, tensões, falar de desequilíbrio e de desigualdades. Vá-se lá saber porquê, diante dessa instalação de Maciel Santos, também ela rica em reinterpretações possíveis, é um poema de amor que me veio à cabeça.

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Rodrigo Oliveira, Sobre o Leite Derramado, 2008, pintura mural

Sobre uma das paredes, Rodrigo Oliveira pintou um fluxo ininterrupto de leite: leite dos Açores, leite da terra prometida (a do leite e do mel), leite passando da micro-economia rural à macro-economia dos grandes grupos alimentares. Mas vejo aí também o mito do movimento perpétuo, da cornucópia inesgotável, do fim da penúria. Ao lado, nova ilusão, três fotografias de Lisboa por Sandra Rocha: um casal vestido de branco a dançar, um quarto de hotel vazio, uma sala de visitas de prisão vazia, três imagens de solidão. Imagens que seriam das mais ordinárias se não se tratassem aqui de Lisbon, California, Lisbon, Missouri, Lisbon, Ohio…Mais uma aparência enganadora.

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Angela Ferreira e Narelle Jubelin, Crossing the Line.3 1999-2015

Ângela Ferreira com Narelle Jubelin revisita mais uma vez mitos coloniais a partir de uma fotografia da família Ferreira a passar a linha durante uma viagem em paquete em direção a Moçambique em 1964: a fotografia em si não existe mais, mas foi realizada uma imagem bordada com um ponto pequeno. A artista re-fotografou digitalmente este bordado e o conjunto foi exposto tanto no Norte tanto no Sul (de Barcelona à Cidade do Cabo, em Madrid, Maputo, Lisboa, Sidney, Londres) e agora em Ponta Delgada. Mas, aquando da última passagem do equador, entre Sidney e Londres, o bordado perdeu-se: resta apenas esta imagem de imagem, esta segunda transposição, esta mutação final muito pouco legível.

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Vasco Araujo, Exotismo – Yes we don’t have bananas, 2015

Por fim, Vasco Araújo apresenta aqui duas peças em relação com as produções agrícolas da ilha, bananas e ananases. Fiel à sua crítica acerba e irónica dos modos de produção e dos rituais coloniais e pós-coloniais, ele faz acompanhar as obras de pequenas peças sonoras: o quadro com bananas é bem evidentemente acompanhado por Yes we have no bananas. Mas sobretudo, numa alcova aberta, um falso ananás em madeira e plástico, exposto sobre um gueridom, tão ambiguamente sensual quanto um Georgia O’Keefe, oferece-se ao olhar maravilhado, até colocarmos os headphones para ouvir trilos erotisantes jogando sobre todos os tons: “Oh it’s so exotic”. Mais uma vez a aparência não é a realidade: o exotismo, esse olhar de um homem do Norte, não é mais do que uma falsa aparência.

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Vasco Araujo, Exotismo 3, 2014

Esta interessante exposição, cheia de alusões, de aspetos inesperados, de décalages, é um pouco um revelador da ilha, do seu estatuto de entre-deux (uma outra “Deception Island”), também podendo nós tentar lê-la como, finalmente, o fio condutor de todo o festival.

Ler a crítica muito bem argumentada de Vanessa Rato.

Fotografias do autor menos 2&3.

Viagem a convite do festival.

Performances de toda espécie

Artigo original aqui

A Fundação Serralves, no Porto, organizou duas jornadas de performances, um evento modesto, se comparado por exemplo ao Nouveau Festival do Pompidou, em Paris, ou a Performa. Mas o caráter compactado desses dois dias tornou possível uma grande diversidade de abordagens e, evidentemente – como é de praxe em caso como este –, permitiu interrogar-se a própria definição de performance. A simples leitura de um texto (do qual, certamente, não compreendo nada), realizada de maneira mais ou menos deliberada, sem a mínima ênfase teatral e de modo bastante monótono, durante cerca de uma hora, é uma performance (Isabel Carvalho, Tartaruga)?

Loreto Martinez Troncoso, Waiting

Loreto Martinez Troncoso, Waiting

Ao contrário, apesar de compreender ainda menos – posto que se trata de idioma galego –, um monólogo intenso, apaixonado, vivo graças à emoção perceptível da artista, loura viúva trágica errante com uma faca na mão, nas alas da biblioteca, proporciona ao espectador para além da compreensão, uma intensidade emotiva mais próxima da performance do que da teatralidade, supreendentemente cativante (Loreto Martinez Troncoso, A Espera).

Anastasia Ax & Lars Siltberg, EXILE

Anastasia Ax & Lars Siltberg, EXILE

Há performances diante das quais sou somente espectador, observador passivo. Em outras, assumo um papel menor, entretanto essencial para mim. Há performances intensas, que solicitam atenção a todos os instantes e outras que se alongam, visando a exaustão monótona. Como simples espectador, fiquei fascinado por duas performances particularmente enérgicas, até mesmo violentas. A primeira proposta por Anastasia Ax (com Lars Siltberg, Exile) – que destrói com o frenesi de uma bacante aos gritos uma instalação de gesso, situada no hall do museu, e pulveriza tinta preta –, tira o fôlego nos deixa perplexos (no dia seguinte, mudança de ritmo, os arqueólogos fazem uma análise das ruínas).

New Noveta, Chvalia Abutak Amethyst

New Noveta, Chvalia Abutak Amethyst

A outra performance de tirar o fôlego foi realizada pela dupla New Noveta, mais ritualizada, em que duas mulheres pouco vestidas tentavam realizar uma tarefa absurda, sisifiana, construindo um espaço em rede, uma grade, para em seguida o desmantelar, com um impulso de uma energia primária burlesca, muito impressionanate (Chvalia Abutak Amethyst).

Vivo & Loreto Martinez Troncoso, Ao vivo

Vivo & Loreto Martinez Troncoso, Ao vivo

Mais doce, mais harmoniosa, mais meditativa, mais poética foi a performance do duo harpista-massagista Vivo com Loreto Martinez. Uma jovem massageava, com energia sensual, um corpo deitado (que pensava ser feminino, mas no final revelou-se ser um homem com cabelos longos). Ao mesmo tempo, uma outra tocava harpa (seus glissandi e pizzicati correspondiam aos gestos da massagista). A terceira cúmplice acompanhava a ação com ruídos, sons, sinos, risos e murmúros (Ao vivo).

Alex Cecchetti, Marie and William

Alex Cecchetti, Marie and William

Uma das performances mais impressionantes foi realizada por Alex Cecchetti (Marie and William) que, ao traçar espirais na parede com amoras esmagadas, conduziu o público pelo fio de uma narrativa poética um tanto absurda, até o momento em que pensei perceber uma reflexão sobre a própria narrativa: como uma história – qualquer história – se constrói, se desenvolve, se adivinha, entre antes e depois, entre o passado e o futuro, entre o real e o irreal.

Maria Hassabi, Solo

Maria Hassabi, Solo

Sem dúvida, o tipo de performance ao qual sou pessoalmente menos sensível (à parte Vexations, penso) é aquele que lida com a exaustão, com a duração, com a repetição incessante de um mesmo motivo, de um mesmo tema, que podemos apreender e até mesmo experimentar. Um momento cujo prolongamento desconcerta e cansa, que se trate de tambores (Kovacs & Doherty, Increments) ou da apropriação corporal de um tapete (Maria Hassabi, Solo).

Alex Cecchetti, Walking Backwards (2013, Paris)

Alex Cecchetti, Walking Backwards (2013, Paris)

As noites se concluíam com uma performance participativa, em que o coletivo Musa Paradisiaca oferecia o pão (seco) e o vinho aos participantes, num ritual ao mesmo tempo sensual e religioso (Cantina-Maquina). Mas a performance que me deixou a lembrança mais viva foi um andar às arrecuas no parque da Fundação (Walking Backwards), em que, hesitando por minhas pernas pouco estáveis durante a caminhada de costas, acompanhada pela voz de Alex Cecchetti, que me guiava pelas costas, descobri as árvores do parque, suas belezas, suas características. A concentração requerida, a ausência de qualquer alma viva ao redor e a atmosfera poética assim obtida me encantaram.

Aos poucos, nos aproximamos da mitologia e da história, dos louros de Dafne, da beladona afrodisíaca, da melancolia de Blanche Daubin Cabral. Ao final do percurso, sempre de costas, os olhos voltados para o céu, eu escutava a voz doce me lembrando aquele copado florestal que percebi do carrinho de bebe e que voltarei a ver em meus instantes últimos quando, com um óbolo entre os dentes, meu corpo deitado flutuará no último barco. Então, senti as lágrimas chegarem.

Fotografias do autor, exceto a última, proveniente do sítio web do artista.

O sal da terra, o sal das nossas lágrimas

Artigo original aqui.

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Henrique Vieira Ribeiro, Sal, 2013

São grandes fotografias coloridas abstratas, fotografias de pura matéria onde o olho dificilmente reconhece formas discerníveis, a uma escala que não saberíamos apreender por falta de referências: talvez o céu e as nuvens de um dia em que o sol vermelhece, talvez uma vista aérea ou de satélite de uma paisagem do Sahel esmagada pelo sol e onde os rios dessecados desenhariam uma trama, talvez uma macrofotografia do corte de um quadro em curso de restauro onde os pigmentos antigos declinariam os seus estratos micronizados longe de toda representação pictural. Percebemos apenas que é questão aqui de fluxo e refluxo, de formas fluídas e entrecruzadas, de uma alquimia colorida e de uma materialidade misteriosa.

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Henrique Vieira Ribeiro, Sal, 2013

Henrique Vieira Ribeiro expõe no Museu de Faro no Algarve (até ao dia 20 de Setembro; comissariado: Andreia César) estas fotografias-quadro que se revelam ser vistas das salinas da região: são os traços do sal sobre a terra que aqui vemos, o seu vestígio sobre o solo, sobre a vegetação, sobre a vida. Estas estranhas imagens são cuidadosamente compostas, harmoniosas no seu caos incerto. Como com as nuvens dos Equivalentes, a noção de enquadramento não faz aqui sentido: que existe para além do quadro, senão a mesma proliferação anárquica, cancerosa, a mesma metáfora do sal ao mesmo tempo fonte de vida e de morte?

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Henrique Vieira Ribeiro, Sal, quimigrama, 2013

Mas trata-se aqui de fotografia, e assim também de química fotográfica, sais de prata como cloreto de sódio. Em contraste com estes esplendores coloridos e flutuantes nos quais mergulhamos o olhar em meditação, uma outra parede apresenta pequenas joias sombrias delicadamente emolduradas: são quimigramas (técnica inventada por Pierre Cordier, o qual cita László Moholy-Nagy: “A ferramenta principal do procedimento fotográfico não é o aparelho mas a emulsão fotossensível”) nos quais o sal foi disposto com outros produtos sobre o papel fotográfico exposto diretamente à luz, sem aparelho nem ampliador, provocando reações físico-químicas imprevisíveis, gerando formas orgânicas acinzentadas ainda mais afastadas da representação do real. Algumas evocam para mim as secretas fotografias atómicas de Harold Edgerton reveladas por James Elkins: é mesma tentativa audaciosa de ir ao coração da matéria, ao coração da fotografia. Porque esta alquimia rebelde é também uma exploração da essência mesmo da fotografia.

Walk & Talk : Raquel e os seus amantes de uma hora


raquel-andrc3a9Artigo original aqui.

Raquel André teve 73 amantes, 30 mulheres e 43 homens, entre os 17 e os 83 anos.

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É, em todo o caso, o que afirmou em público, uma noite, na galeria de Walk & Talk ( e que ela reafirmará brevemente em Lisboa, adicionando até lá, em princípio, mais 27 novos amantes – pena que se tenha de falar português, teria gostado de me candidatar). Cada uma destas histórias de amor (excepto duas: um ex e alguém do qual não saberemos nada) durou…uma hora.

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Na realidade a artista convidou pessoas conhecidas ou desconhecidas a passar uma hora com ela para simular uma intimidade amorosa, no Rio de Janeiro, em Lisboa e em Ponta Delgada. Cada entrevista é acompanhado de uma ou mais fotografias testemunhando de maneira direta ou indireta este encontro íntimo.

Colecionite obsessiva, intimidade ficcional ou real: é ao mesmo tempo uma história sobre a carência e o desejo obstinado de a preencher, sobre a dor da ausência que nada parece curar, e uma exploração dos limites da performance e da impossibilidade dela conservar um vestígio.

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Raquel André, Collection d’amants, performance 29 juillet 2015, foto walk&talk/Rui Soares

A projeção das fotografias é acompanhada de uma enumeração lúdica das características dos ditos amantes, como uma contabilidade digna do OuLaPo:

  • dez amantes ofereceram-lhe um presente;
  • ela lembra-se do odor de cinco de entre eles;
  • ela ouviu muito bem o bater do coração de trinta dos seus amantes;
  • 43, fetichistas podófilos, fotografaram os seus pés;
  • ela trocou de roupa com três amantes e tomou banho com sete;
  • um ex pediu-lhe para dizer as palavras que ele teria gostado de ouvir da boca do seu ex;
  • e se nós sabemos que ela partilhou a cama de 48, e que teria desejado ter um encontro mais íntimo com onze, recusou revelar quantos se tornariam verdadeiramente seus amantes após estes encontros.

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Para além do lado sentimental, psicológico e divertido desta ficcionalização, é o processo performativo que outorga interesse a este trabalho, a tensão entre o efémero e o essencial, e a obsessão quase doentia do colecionador. Mas aqui a artista parece sempre guardar o controle, não mostra nenhuma fraqueza, não se torna vulnerável: é, no fundo, apenas um jogo, ou em todo o caso ela apresenta-o como tal, sem se aventurar nos terrenos mais perigosos que foram explorados por Marina Abramovic ou Tracey Emin.

Viagem a convite do festival.

O observador possuído pela pintura em si

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Catarina Dias, Espaço-Cérebro, vista de exposição, galeria Vera Cortês, Julho 2015, foto Bruno Lopes

Artigo original aqui.

Já foi alguma vez obrigado, diante de obras de arte, a ficar imóvel, a colocar o seu corpo no único lugar adequado do espaço, de se mover apenas através de um protocolo implícito determinado pelo artista? Sim, sem dúvida, diante de esculturas como a Dafne do Bernini ou de um objeto específico de Donald Judd, exemplo de esculturas que possuem essa exigência intrínseca do colocar do observador no “bom” lugar. Mas diante de quadros?

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Catarina Dias, Espaço-Cérebro, vista de exposição, galeria Vera Cortês, Julho 2015, foto Bruno Lopes

Os quadros abstratos de Catarina Dias, de formas coloridas, nebulosas, atormentadas, fluídas e indefinidas, não atrairiam provavelmente tanto o olhar se eles não se conjugassem com palavras, com letras. Mas antes de saber o que está lá escrito e de o meditar, temos de o decifrar: porque, diante destas letras escritas ao contrário, em espelho ou de cabeça para baixo, o espectador torna-se uma criança tentando aprender a ler face ao seu abecedário. Com uma ligeira vergonha, dei por mim a mexer os lábios em silêncio, porque me dei conta então de que preciso dessa articulação muda, dessa enunciação introvertida para que as palavras possam chegar ao meu cérebro, para que essas formas, que reconhecera no entanto como letras, se tornem um texto; senão, não serei cego mas analfabeto, como se estivesse diante de um texto em alfabeto georgiano, por exemplo. Tenho de me colocar diante da tela, só, imóvel, concentrado, bloqueando toda visão periférica, à distância correta (e cada um determina a sua, cerca de um metro e meio para mim, mas outros colocam-se mais perto e então a cabeça vai-se inclinando pouco a pouco de baixo a cima quando leem).

 

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Catarina Dias, Espaço-Cérebro, vista de exposição, galeria Vera Cortês, Julho 2015, foto Bruno Lopes

 

Mas não chega. Também devo encontrar o meu ritmo, ler lentamente, respirar profundamente, deixar incutir em mim a respiração dos esquissos de poemas que leio. Gosto de imaginar que poderíamos assim gravar o barulho silencioso dos espectadores, os seus fôlegos ritmados, o seu esquisso de enunciação sem ir além dos lábios. E, assim, concentrado, atento, reduzido ao estado de puro observador, entro num universo de silêncio, de impossibilidade, de frustração, de esgotamento. Li tudo? Percebi tudo? E porque estou tão esgotado ao fim da minha visita, extenuado, cegado, desesperado? Leio: amorfo. Leio: caótico. Leio: incomodado. Leio: irracional. Leio: imprudente. Leio: impulsivo. Estas palavras são um espelho da minha alma. É uma mensagem que me foi dirigida (como um Rorschach do qual apenas eu penetraria o sentido – um sentido?) A minha bonita vizinha impulsiva lê outra coisa que eu nestas letras onde eu recebo em plena face a palavra “aventuroso”? Esta artista que soube assim tomar posse do meu corpo, dos meus lábios, do meu fôlego, não escreverá ela assim uma mensagem diferente para cada um de nós? Dirige-se ela a mim, apenas? Estarei possuído?

A exposição chama-se Espaço-Cérebro, na galeria lisboeta Vera Cortês, até ao dia 19 de Setembro, comissária Joana Neves. Catarina Dias apresentará um segundo tomo da sua exposição no espaço Appleton Square do 8 ao 19 de Setembro.