Arquivo mensal: Maio 2015

Um dedo entre as páginas

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Anon. francês, Deux mains, pedra negra e reforços de branco, vers 1725, 25.9×41.3cm

Artigo original aqui.

Está presumivelmente na natureza de um prólogo ser atmosférico, ligeiro, incitante, estimulante, aguçador da curiosidade ; está presumivelmente na natureza de um epílogo ser sério, denso, demonstrativo, conclusivo, fechante. A segunda parte de Pliure (dobra), a exposição de Paulo Pires do Vale no Palais des Beaus-arts (até ao dia 7 de Junho) é um epílogo ; não possui, pareceu-me, a fantasia mágica da exposição que findou na Fundação Gulbenkian e isso não se deve apenas à disposição e ao espírito dos lugares. Primeiro este epílogo abrange um capítulo de “verdadeira” história da arte, um andar que mostra o resultado de uma exploração das imensas coleções da escola afim de encontrar obras evocando o livro, das gravuras de Dürer e Rembrant a Jazz de Matisse.

É didático e interessante, mas sem fantasia e, nestes rolos, rotuli, códex, folhetos, biombos e kansubon de antes da idade do livro, o espaço infra-magro da dobra parece desaparecer. Também a homenagem muito bem documentada consagrada a Seth Siegelaub contribui a infletir toda a exposição em direção a uma dimensão mais intelectual, a um tema mais largo e vácuo, onde a magia misteriosa da dobra aparenta desvanecer-se.

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Claudio Parmiggiani,ST, 2014

Mas tratam-se aqui de apêndices: deixemos a didática no primeiro andar para mergulhar no desconhecido no rés-do-chão onde somos primeiro confrontados a fantasmas, fantasmas de livros ausentes das prateleiras (Ignasi Aballi) ou desaparecidos em fumo (Claudio Parmiggiani), fantasma de Bas Jan Ader ele-mesmo ou da amiga falecida da qual Fernanda Fragateiro recorta e reconfigura os livros. Esses livros absentes são o que nós faremos nós-mesmos, eles existem através do que nós projetamos neles, entre prólogo e epílogo.

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Dora Garcia, The Joycean Society, 2013

Face a este vazio, a esta ausência sonhada confronta-se o livro mais denso, o mais grosso, o mais carregado, não a Bíblia (e no entanto, ela teria ali o seu lugar, por exemplo com a peça sem Deus de Faustine Cornette), mas Finnegans Wake (do qual talvez não tenha sido o único aqui a não ter conseguido ir até ao fim…). Se John Cage filmado por Takahko Iimura faz uma salmodia, uma encantação, como uma dissipação em fumo, um grupo de uma dúzia de pessoas originárias de Zurique, muito sérias, maioritariamente homens de idade, encontram-se todas as semanas desde 1984, durante uma hora, para o dissecar, para o folhear, interrogar sem descanso: Dora Garcia filmou (notavelmente, intensamente, discretamente) a integralidade de uma das sessões da Joycean Society, e esta é, de toda a exposição, a peça mais amorosa, a mais respeitosa, a mais hipnotizante, a mais possuída. Aqui é questão do carácter mais ou menos aquático dos rios, a começar pelo Saint-Laurent, do parentesco semântico entre Joyce (‘joy’) e Freud (‘freude’), da adição a Finnegans Wake, como uma droga terapêutica para pessoas sem ambição amorosa ou profissional e, claro, palavras, nomes próprios ou nomes comuns, a decifrar incansavelmente, por todos os meios: analogia, pesquisa, poesia, fantasia, migrações linguísticas ou construções abracadabrantes. A primeira leitura durou de 1984 a 1995, a segunda de novo onze anos e eles estão atualmente na terceira iteração, a terceira tentativa de esgotar o sentido. Cada sessão, num local exíguo, biblioteca joyeana ideal, termina com um instante de silêncio, recolhimento quase religioso. E diz um deles: “Iremos todos para o inferno por termos lido Finnegans Wake.”

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Danh Vo et alii, Hannah Arendt’s Library, 2012

Após esta experiência de uma intensidade total, muitas outras obras arriscam-se a parecer um pouco insípidas, a estética relacional de Dominique Gonzalez-Foerster ou de Seth Price parecem gentis, bem-intencionadas, certo, mas um pouco ligeiras em termos de sentido, e mesmo as anotações marginais do meu caro Julien Prévieux mostram-se demasiado evidentes (pena não termos antes uma das suas bibliotecas). Reagimos graças a meta-textos mais amplos que os de Genette, não apenas a nota de rodapé, valorizada em grande formato por Alejando Cesarco (Footnotes), mas também o inserto, o marca-páginas: três compadres, Heinz Peter Knes, Danh Vo e Amy Zion, fotografaram todos os pequenos fragmentos de papel introduzidos nos livros de Hannah Arendt. Se a maior parte tem a ver com livro em si, por favor inserir, cartão do editor, carta do autor ou artigo crítico, os mais intrigantes são os que abrem uma janela sobre a vida da escritora: factura de sapateiro, postal de Walter Benjamin ou talão de um vale postal de 50 francos emitido em Kalipeda (Mermel) no dia 15 de Setembro de 1935 (que a lenda confunde com um bilhete de comboio…). Que dizem de nós estas frações, estes traços de vida sem contexto? Mais índices do que factos, mais marcas do que signos, mais situações do que histórias.

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Rodney Graham, Allegory of Folly: Study for an Equestrian Monument in the Form of a Wind Vane, 2005

Por fim, duas obras visualmente muito fortes: uma que se impõe e outra que se dissimula. Um imenso painel retro-iluminado mostra-nos Rodney Graham em Erasmo, cavalando ao contrário um cavalo mecânico, absorvido na sua leitura: a distração, certo, mas também o facto de ir a contra-corrente. A outra (acima) é um pequeno desenho anónimo francês de um gesto que todos fizemos, mas que, assim valorizado, adquire uma evidente dimensão erótica: é também assim que gostamos dos livros, é também assim que eles se oferecem, é também assim que lhes pegamos. A duzentos metros de lá, para melhor vender as suas roupas, Sonya Rykiel transformou a sua boutique em livraria…

Fotos do autor, à excepção da última.