Arquivo mensal: Abril 2015

Um pouco de Portugal em Paris

Artigo original aqui.

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Joana Escoval, The past and the present are unified in locations where important events happened, 2014, vidro, poeira de mármore, cobre, 4×11.5x4cm

É um olhar eclético e pessoal sobre a jovem cena portuguesa que a comissária Joana Neves propõe na Fundação Ricard (até ao dia 9 de Maio), e abstenho-me de questionar estas escolhas, sendo as minhas tão recentes e parciais. A visão que exala da exposição parece-me cobrir uma paleta ampla, de um certo minimalismo formal até trabalhos mais politizados.

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Joana Escoval, It arises not from any cause, but from the cooperation of many, aligem de cobre plaquado, 2014

Dum lado, peças carregadas de densidade (uma grande “escultura-desenho” de papel e grafite de Diogo Pimentão, porventura o artista mais conhecido desta seleção) mas também de humor e subtileza: apreciei particularmente a ligeireza maliciosa e um pouco incomodativa de Joana Escoval, tanto a sua ampulheta incoerente, inútil e dissimulada (acima) como as suas linhas quebradas em cobre, imperceptíveis e perturbantes (não graças a uma só causa, mas à cooperação de várias).

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Ângela Ferreira, Mont Mabu, 2013 (ao fondo, Oficina Arara)

Do outro, a instalação de Ângela Ferreira é a que melhor expõe a história, numa trama complexa de correspondências entre documentos de exploração de uma região selvagem de Moçambique (o país de origem do artista), a liteira fúnebre de Livingstone, documentada nas paredes e reproduzida aqui em forma de escultura modernista de grande escala para acolher (desconfortavelmente) as projeções de vídeos, e outros pedaços da história colonial.

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Igor Jesus, O meu pai morreu no ano em que eu nasci, 2014, vidéo HD, 3 min

Por fim, íntimo e comovente, um magnífico pequeno filme de Igor Jesus: o artista, filho póstumo de um pai morto mês e meio antes do seu nascimento, é filmado numa semiobscuridade em casa de uma vidente que invoca com uma extraordinária intensidade interior a alma do seu pai face a uma mesa guarnecida de velas. O filho tecla o seu nervosismo na superfície do sofá, o pai evita-o, e a vidente diz “Vou deixá-lo descer” e depois sopra sobre todas as velas, como um falhanço, uma segunda morte.

Fotografias do autor.

O museu dos negros ídolos

Texto original aqui.

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Miguel Branco, LUZ, galeria Pedro Cera, 2015, vista da exposição

Pensaríamos estar num museu. Mas é uma galeria, é apenas uma galeria, mas onde a disposição das estátuas, as bases, a iluminação nos transporta para o Louvre ou para o British Museum. Mas para que sala? Para que época? Reconhecemos aqui e ali antiguidades gregas ou romanas, estátuas egípcias, divindades pré-colombianas.

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Miguel Branco, ST, 2012 2013, grés, 48 x 35 x 38 cm

Este escriba sentado que provém diretamente do Egipto tem as mãos cortadas: é este um sinal de impotência a escrever ou de censura? Transposto para o mundo atual, no meio dos nossos contemporâneos, ele e os seus confrades irradiam uma estranheza inquietante e negra. De órbitas vazias ou de olhos fechados, crânio desproporcionado, ver hidrocéfalo, cara simiesca, o sorriso/rictus ambíguo fazem deles tanto aliens de ficção científica ou Ötzi que antiguidades.

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Miguel Branco, ST,, 2015, grés, 59,5 x 19,8 x 28 cm

Reconhecemos um senador romano na sua toga, um ídolo inca, a polimasta Artemis de Éfeso, uma morte medieval jocosa resvalando para trás. Todas são feitas de grés negro, por vezes liso e acariciável, por vezes rugoso e coberto de glitter dourado e arenoso. Possuem uma aura? Projetam ondas, que poderíamos pensar maléficas se não nos apaziguássemos, não nos reconciliássemos com a sua nobreza aquietada após um momento de familiaridade com elas? A sua negritude arranca-as do passado, confere-lhes uma presença forte e imanente, não cessando porém de evocar a morte.

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Miguel Branco, ST, 2015, grés, 56,7 x 29 x 20 cm

Miguel Branco (na galeria Pedro Cera até ao dia 23 de Maio) conta que, quando ele tinha quatro anos, o seu pai trouxera um dia para casa diapositivos sobre a arte egípcia e mesopotâmica e que esse momento fora para ele uma revelação. Disso carrega as marcas ainda hoje.

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Rosangela Renno, ST, série Insolidos, 2014, seis impressões digitais sobre organdi de seda, 190x140x8cm

Na esquina da rua, fiquei desiludido com a exposição de Rosângela Rennó na galeria Cristina Guerra (até ao dia 16 de Maio): enquanto que os seus retratos quasi invisíveis de pessoas desaparecidas (na MEP há três anos) me tinham marcado fortemente, não soube o que pensar da banalidade destas suas sobreposições de projeções de diapositivos. As imagens sobrepostas sobre superfícies de organdi flutuantes seriam mais interessantes se a sua pureza transparente não fosse por vezes ‘poluída’ pela inclusão de objetos reais, como uma cruzeta (aqui em cima) ou uma mola, que, ao ancorá-los em readymades híbridos, quebram a força estética. Finalmente, a sua melhor peça aqui são os seus livros sobre o roubo e a restituição de arquivos fotográficos: fotografias devolvidas ou recuperadas, mostrando apenas o verso, como um testemunho da impossibilidade de ver além da imagem.

Fotografias de M. Branco cortesia da galeria; fotografia R. Renno pelo autor.

Do lado dos fantasmas

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Anna Franceschini, Before they break, before they die they fly!, 2014, vídeo, 5’40”

Artigo original aqui.

Dois artistas apostos, um homem português e uma mulher italiana cujas obras ecoam fortemente entre elas, na galeria Vera Cortês até ao dia 2 de Maio. André Romão fala de fantasmas e encarnação, Anna Franceschini de magia e de espectros.

 

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André Romao, Shell (mineral eroticism) 2, 2015, 62.5x75cm

Além de um olho a piscar sem cessar, André Romão mostra aqui dois conjuntos de obras, um formalmente desencarnado (três estruturas banais de plástico transparente) e presente através da voz metálica e do discurso que dela provém, outro de motivos carnais mas de formas depauperadas. How to kill a ghost é o “manual de instruções” difundido por um pequeno altifalante sobre uma destas estruturas em plástico (as duas outras, na sala adjacente, escutam o seu eco, provavelmente), um discurso erótico-trágico, uma interrogação sobre o corpo, a sua presença-ausência, o seu desejo, tudo isto pronunciado (em inglês) por uma voz modificada electronicamente, não reconhecível, como a proteger a identidade do falante.

 

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André Romao, Shell (mineral eroticism) 5, 2015, 62.5x75cm

A sua série fotográfica Shell (mineral eroticism) mostra, ao contrário, corpos de jovens homens nus, muito presentes, muito sensuais; eles ostentam conchas, nas quais a abertura é evidentemente erótica (e a da ilustração acima é da mesma variedade que a de Odilon Redon, que abeirava no Verão passado em Ornans a anatomia por ela simbolizada), mas na qual as pontas agressivas incomodam, de tão falicamente violentas. Estas fotos, que poderiam ser muitíssimo sensuais, são apresentadas sob forma de fotocópias pardas, com grão, empalidecidas: uma outra exploração da tensão entre riqueza assumida do tema e pobreza deliberada da forma.

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Anna Franceschini, Before they break, before they die they fly!, 2014, vídeo, 5’40”

O vídeo contíguo de Andrea Franceschini, Before they break, before they die, they fly! quer-se exercício delicado de magia, no qual objetos flutuam em levitação por cima de uma máquina misteriosa, provavelmente magnética ou indutiva, por vezes diante de um lençol branco e azul, e por vezes numa obscuridade cativante: uma “coisa” científica, claro (sendo que o único objeto que, a um dato momento, escapará ao campo e cairá é, obviamente, a varinha mágica).

 

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Anna Franceschini, Before they break, before they die they fly!, 2014, vídeo, 5’40”

Mas é sobretudo um jogo com a história: desfilam diante de nós, para além da mencionada varinha, pequenos objetos, recordações miniatura evocando a história antiga, o Coliseu, um capacete romano, um capacete micénico (se a recordação dos meus cursos de arqueologia é certeira), a loba romana, três colunas coríntias com folhas de acanto, a misteriosa mão de porcelana segurando uma pequena caixa colorida (ilustração acima), e a estátua jacente de santa Cecília, patroa dos músicos como toda a gente sabe, langorosamente deitada sobre o seu leito de falso mármore e ouvindo um concerto celesta na hora da sua agonia. A levitação mágica destes objetos, a sua oscilação, a iluminação colorida e estroboscópica, o jogo de sombras, tudo contribui a transformar estas bugigangas em objetos de culto, de memória, carregados de aura.

 

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Detanico Lain, Onda, 2010, sal, 250×518.5cm

Falei recentemente da exposição do duo Detanico Lain nesta mesma galeria. A muito interessante Fundação Leal Rios apresenta, numa exposição de obras da sua coleção evocadoras de astronomia (As the earth spins beneath the stars), uma soberba peça destes dois artistas (lado a lado com, entre outros, uma máquina hipnótica de Max Frey, Rotor d220). Onda é um desenho no solo, feito de sal, representando quatro formas de ondas sinusoidais: cada forma corresponde a uma das letras da palavra, aumentando as amplitudes paralelamente ao alfabeto. A palavra e a sua forma constituem um só: é uma obra perfeitamente integrada na linha das suas pesquisas sobre o alfabeto e o éter.

Fotografias: cortesia da galeria, à exceção da primeira.