Arquivo mensal: Outubro 2014

Ocupar o palácio do marquês

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Susana Anágua, Desvio, 2014

Mostrar arte contemporânea em lugares que, sem serem verdadeiramente ruínas, estão degradados, decrépitos mas carregados de história é um projeto delicado, por vezes incongruente (foi por vezes o caso nas caves do Palais de Tokyo) e por vezes mágico (lembro-me de uma exposição sóbria e violenta de Teresa Margolles num palácio veneziano). O Palácio Pombal, lugar de nascimento do ilustre estadista português, não parece nada de especial a partir da rua mas, além de um jardim tão decrépito como o palácio mas enfeitado com alguns pavões (haverá alguma colusão lisboeta entre pavões e arte?), compreende três andares de salas que adivinhamos terem sido magníficas: decoração rococó, tectos ornamentados, paredes de azulejos, chaminés de mármore…Mas tudo se desfaz sob os efeitos conjugados do tempo, da humidade e da indigência negligente, o soalho está torto e a pintura lasca. Que arte pode resistir num cenário destes? Como um bunker ou uma prisão, o Palácio fantasma, nos antípodas de um white cube, esmagaria obras demasiado descritivas, demasiado ligeiras.

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Errâncias fotográficas em Lisboa

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Letícia Ramos, Meteorito, 2014

Dos três fotógrafos apresentados (até ao 7 de setembro) no quadro do Prémio BES 2014 ao seio da (soberba) coleção Berardo em Belém, podemos passar rapidamente sobre José Pedro Cortes que mostra soldados israelitas em cuecas (é sempre melhor do que a apontar-vos a metralhadora) e de zonas de subúrbios sem interesse. A brasileira Letícia Ramos, laureada do prémio, trabalha sobre a escala e a (não) visibilidade: ela magnifica imagens extraídas de um microfilme, os seus meteoritos são esculturas minimais, as suas paisagens desenhos abstratos, a realidade parece flutuante, inatingível. Num dos seus filmes, uma paisagem submarina polar não se descobre que com a luz dos faróis de um pequeno submersível: uma impressão de irreal, de extremo, um jogo de luz fascinante.

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Délio Jasse, vista da exposição, BES Photo 2014, CCBelem

Mas a minha preferência foi para o angolano Délio Jasse, que mostrou caixas pousadas no chão onde flutuavam na água, por vezes colorida, superposições de fotografias, retrato e paisagem urbana, marcadas de um carimbo oficial de imigração. Para ele, que fora durante muito tempo um sem-papéis em Lisboa, o carimbo oficial é um ícone, ou em todo o caso um signo da sociedade contemporânea classificadora e exclusiva. E estas imagens flutuando pelo chão falam de memória, de luto talvez, de nostalgia, mas o seu estado interroga igualmente a essência mesma da fotografia e o seu processo de criação.

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Délio Jasse, série Ausência Permanente, 2014

Jasse trabalha muito sobre a arqueologia fotográfica, sobre a redescoberta de procedimentos antigos, sobre a superposição memorial e a amplificação do arquivo documentário. Ele organiza ao mesmo tempo (até ao 13 de Setembro) uma exposição da galeria de Andréa Baginski num bairro afastado do centro mas trendy da capital, com, entre outros, estes cianótipos de Luanda, das suas mutações arquitectónicas e do fluxo de passantes na cidade: um trabalho de montagem, de justaposição, de conexão. A seguir.

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Vista de exposição Délio Jasse, galerie Baginski

Num recanto da mesma galeria, a sombra das mãos e braços de Peter Schlemihl, enrolada no chão pela jovem artista Lúcia Prancha (em baixo). Lá pert, na galeria Múrias Centeno (até ao 26 de julho), as superfícies negras de Diogo Pimentão (descoberto na galeria Yvon Lambert). Um pouco mais longe (até ao 13 de setembro), o grande fotógrafo João Penalva na galeria Filomena Soares com, em particular, as suas fotografias de chãos, de passeios, de calçadas à escala 1. Apenas algumas descobertas errando nas ruas de Lisboa…

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Vista de exposição Lúcia Prancha, galerie Baginski

Ponteiros dos segundos e canetas BIC, o inexorável tempo que passa

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Dalila Gonçalves, Sustenido, 2014

A exposição de artistas austríacos, dinamarqueses e portugueses ao Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian (até ao 21 de Setembro) parece um pouco desigual (certo, os artistas vêm todos de pequenos países que foram ameaçados, ver anexados pelos seus poderosos vizinhos); ela quer-se a ocasião de falar de dicotomias, de rupturas, de diferenças. Ela é antes de mais a ocasião de meditar sobre os distanciamentos linguísticos: o seu título em português é “Daqui Parece Uma Montanha”, o que, em francês, mas também em inglês e dinamarquês se diz mais ou menos “a relva do vizinho parece sempre mais verde”, enquanto que em alemão o título evoca as cerejas no jardim do vizinho (e o título inicial em português, abandonado em seguida, falava da galinha da vizinha…). Uma vez isto adquirido, o propósito perde-se um pouco nas diferentes proposições artísticas; demasiadas, sob pretexto de sublime, mostram banalidades paisagísticas, montanhas grandiloquentes de Gregor Graf, grutas marinhas misteriosas de Nuno Cera ou horizontes de Katharina Lackner, peças bem feitas mas não oferecendo mais de pontos de apoio permitindo ir além da aparência, não mais do que a casa de Claudia Larcher.

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A arte da rua, em negativo

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Vhils, Dissection, Museu da Electricidade, Lisboa, 2014

Normalmente vou às exposições de artistas urbanos com uma grande prudência, por vezes pouco ao corrente das subtilezas da arte dos tags e graffiti, por vezes mesmo ultrajado pela recuperação mediática que certos (como JR) fazem. Por isso fui ao Museu da Eletricidade em Lisboa com uma certa desconfiança para ver a exposição “Dissection” de Alexandre Farto, aka Vhils (até 5 de Outubro). Primeiro o seu trabalho dá conta da realidade dos lugares onde passa, não são as impressões giras de um turista pleno de boas intenções e de vento. Assim, numa favela do Rio, é sobre as casas donde eles vão ser expulsos que ele grava os retratos dos habitantes. Mas é sobretudo a maneira pela qual as suas imagens emergem sobre suportes em betão, metal, madeira ou papel que é interessante: muitas vezes a imagem aparece em negativo, como matéria retirada ao suporte.

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Vhils, Dissection, Museu da Electricidade, Lisboa, 2014

Por vezes é necessário distanciar-se, como com este labirinto de hastes de plástico onde é apenas do alto de um andaime que podemos distinguir dois rostos no que, de perto, era apenas confusão. A exposição é bem cenografada, um túnel sombrio cheio de imagens violentas conduzindo a uma doce composição branca agitada pelo vento, e em seguida pequenos cubos brancos, cada um dedicado a uma técnica conduzindo o visitante em direção de uma carruagem de metro desossado, pintado de branco e pendurado ao tecto: uma estética do vandalismo e da destruição, para responder à destruição urbana e ao vandalismo do poder.

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Vhils, Dissection, Museu da Electricidade, Lisboa, 2014

Nesta cidade onde floresce a arte urbana (e onde o Instituto Francês lhe consagra uma pequena exposição), é interessante ver este lugar estranho (uma antiga central térmica na margem do Tejo) consagrar uma exposição a este artista simultaneamente rebelde e introspectivo.

Rentrée à beira-Tejo (II)

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Outras exposições interessantes.

Alvarà

Após a minha primeira descoberta entusiasta do centro de arte Carpe Diem (que celebra os seus cinco anos) regressei ao local a propósito da sua nova exposição (até 20 de Dezembro): é um espaço notável e exigente, e que reclama densidade às obras expostas, para conseguirem resistir face ao espírito do lugar. Consequentemente fiquei menos convencido por certas peças aqui apresentadas, ou demasiado neutras ou bem demasiado ligeiras e irónicas (a obra de arte como lixo…), ao passo que outras, uma vez mais, sabem ocupar o espaço com nobreza e força. Assim Mafalda Santos construiu, num dos salões de honra, uma parede constituída de folhas de papel amontoadas , com discretos efeitos de cor incorporada na borda, e o jogo da luz do sol: é uma destruição, uma biblioteca em ruína, um monumento funerário ao papel, aos livros, um memorial de burocracias mortas. É igualmente uma escultura minimal, um obstáculo de uma falsa e enganadora ligeireza, que é necessário contornar, e ao qual o corpo se compara em vão, por vezes nele imprimindo a sua sombra (também aqui).

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Rentrée à beira-Tejo (I)

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Vista do mar de palha desde o sítio industrial Baía do Tejo.

Inevitavelmente, numa cena artística que começamos a descobrir, equivocamo-nos, perdendo por vezes o tempo em galerias e salões nos quais as obras parecem destinadas às salas de espera de dentistas, mas fazemos igualmente belas descobertas, quer em galerias mais na moda, em festas de bairro ou em lugares mais insólitos. Comecemos então pelo insólito, os lugares fora dos circuitos balizados , que vos levam até prédios outrora chiques e hoje meio em ruínas e onde subsistem os vestígios de uma instalação veneziana, ou até um bairro social longínquo para aí observar ovelhas e caixas não muito saint-exuperianas ou, melhor ainda, até um parque industrial quasi-desocupado, situado na outra margem do rio. Nesta paisagem tristemente pós-industrial mas banhada pela luz do mar de Palha, seis artistas, após uma residência no Museu Industrial local, apresentam (até ao dia 11 de Outubro) trabalhos num percurso em edifícios industriais abandonados (alguns dotados de belos azulejos) com a comissária Cláudia Ramos. Da maior parte destas peças emana uma sensação de ruína, de poesia dos vestígios; uma traduzida de maneira sonora e vibratória, recriando uma respiração nestes lugares asfixiados, uma outra através de projeções de matérias químicas coloridas sobre as paredes destas fábricas, como que um desafio ressuscitador face à morte programada.

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